Falta de paridade bloqueia nomeação da Comunidade Intermunicipal no CA da ULS de Castelo Branco

21 de Janeiro 2026

A Comunidade Intermunicipal (CIM) da Beira Baixa está, desde dezembro de 2023, sem representante legal no Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde (ULS) de Castelo Branco, numa situação que considera ilegal por incumprimento da lei da paridade na composição daquele órgão.

O impasse teve origem após a nomeação, pelo Ministério da Saúde, do atual Conselho de Administração da ULS de Castelo Branco, em dezembro de 2023. Na altura, o então diretor executivo do Serviço Nacional de Saúde (SNS), Fernando Araújo, solicitou à CIM da Beira Baixa a indicação de um vogal para integrar o órgão de gestão da unidade, conforme previsto na legislação em vigor.

A Comunidade Intermunicipal procedeu à indicação do seu representante e comunicou essa decisão à direção executiva do SNS, que entretanto sofreu alterações, com a entrada de António Gandra D’Almeida para o cargo de diretor executivo.

Em declarações à agência Lusa, o presidente da CIM da Beira Baixa, João Lobo, afirmou que a composição do Conselho de Administração da ULS de Castelo Branco nomeado pelo Ministério da Saúde “está ferida de ilegalidade, porque relativamente aos membros que a própria tutela indica não cumpre a [lei] paridade”.

Segundo o responsável, está a ser feita uma tentativa de transferir para a CIM a responsabilidade pelo cumprimento da paridade, algo que considera “inaceitável”.

“A CIM não tem, por regra, uma situação de confronto com as instituições. Regemo-nos por uma condição sempre de consideração institucional e é isso que temos feito. Agora, o facto é que ao longo de quase três anos andamos com esta situação e ela não encontra solução”, sublinhou.

Em dezembro de 2024, a direção executiva do SNS informou a CIM da Beira Baixa de que, atendendo à composição do Conselho de Administração da ULS de Castelo Branco — constituído por quatro homens e uma mulher —, a proposta apresentada pela Comunidade, que indicava um homem, não permitia assegurar uma representação equilibrada entre mulheres e homens, conforme determinado por lei.

Perante esse entendimento, António Gandra D’Almeida solicitou à CIM a indicação de outro elemento para integrar o Conselho de Administração. Em resposta, a Comunidade Intermunicipal decidiu solicitar um parecer jurídico, que foi remetido à direção executiva do SNS em março de 2025.

De acordo com o parecer jurídico a que a agência Lusa teve acesso, “considera-se que a lei 62/2017 [define a proporção de pessoas de cada género no CA] teria de ser cumprida e tida em conta pela direção executiva do SNS na constituição do Conselho de Administração como órgão colegial”.

Na ausência de resposta por parte da direção executiva do SNS, a CIM voltou a insistir na resolução da situação em abril de 2024.

Já em agosto de 2025, e com Álvaro Almeida em funções como novo diretor executivo do SNS, a Comunidade Intermunicipal recebeu informação de que, após esclarecimentos obtidos junto do Ministério da Saúde, a solução passaria pela manutenção da atual composição do Conselho de Administração da ULS de Castelo Branco, ficando vago o cargo de vogal executivo, ou, em alternativa, pela reformulação da proposta inicial da CIM, mediante a indicação de uma personalidade do sexo feminino.

A direção executiva do SNS apresentou ainda uma terceira possibilidade, que consistia na revisão da composição do Conselho de Administração de forma a permitir a aceitação do elemento do sexo masculino indicado pela CIM da Beira Baixa. No entanto, sublinhou que, considerando que o Conselho de Administração já se encontra formalmente constituído e em efetivo exercício de funções, essa opção não poderia, nesta fase, ser aplicada.

Foi ainda transmitido à CIM que o processo tinha sido apresentado à tutela e que, com a entrada em vigor da Lei do Orçamento do Estado para 2025, a competência para a designação dos membros dos Conselhos de Administração das ULS e IPO passou a estar novamente atribuída ao Conselho de Ministros.

Perante esta situação, a CIM da Beira Baixa decidiu recorrer à Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG), comunicando todos os factos do processo e solicitando, no âmbito das competências daquela entidade, a adoção das medidas necessárias para a reposição da legalidade da composição do Conselho de Administração da ULS de Castelo Branco.

Durante este período, a presidência da CIG sofreu também alterações, o que levou a CIM a renovar a sua insistência junto daquela comissão em setembro de 2025.

João Lobo explicou ainda que, conforme deliberado em reunião do conselho intermunicipal, foi solicitada uma nova audição à ministra da Saúde para discutir este e outros assuntos que preocupam a Comunidade Intermunicipal e a própria administração da ULS de Castelo Branco.

“Não queremos entrar em confronto, porque entendo que não é essa a forma de atuação entre instituições que querem — espero eu — cuidar dos nossos concidadãos. Mas, se não tivermos resposta num tempo prévio, evidentemente que teremos de rever a situação, nomeadamente o recurso ao Ministério Público na defesa dos direitos legais que a CIM tem”, afirmou.

Contactada pela Lusa, a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género confirmou que tem conhecimento do processo desde setembro e que o mesmo tem sido objeto de acompanhamento e análise. Segundo a CIG, concluída essa fase de avaliação, foi formulado recentemente um pedido de esclarecimento à direção executiva do SNS.

Em resposta à agência Lusa, a direção executiva do SNS rejeitou a existência de incumprimento legal, sustentando que o provimento dos cargos do órgão de gestão da ULS de Castelo Branco ainda não se encontra esgotado. Acrescentou que o membro ainda por indicar, designado pelos municípios abrangidos pela unidade local de saúde, deverá ser do sexo feminino, de modo a garantir o cumprimento do regime de representação equilibrada entre mulheres e homens previsto para os órgãos de administração e fiscalização das entidades do setor público empresarial.

A agência Lusa contactou igualmente o Ministério da Saúde para obter esclarecimentos adicionais sobre este processo, sem que tivesse obtido qualquer resposta.

A Comunidade Intermunicipal da Beira Baixa integra os municípios de Castelo Branco, Idanha-a-Nova, Oleiros, Penamacor, Proença-a-Nova, Sertã, Vila de Rei e Vila Velha de Ródão, todos localizados no distrito de Castelo Branco. A ULS de Castelo Branco abrange sete destes oito municípios, com exceção de Vila de Rei, que integra a Unidade Local de Saúde do Médio Tejo.

lusa/HN

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