Miguel Ruas: “A Arábia Saudita é um país-foco para investimentos mais robustos da Tecnimede”

01/21/2026
Em entrevista ao Healthnews, na sequência da visita à sede do Grupo Tecnimede de uma comitiva de alto nível do Reino da Arábia Saudita, Miguel Ruas, Chief Development Officer, analisa a estratégia de aprofundamento no mercado. A delegação, organizada pelo Conselho Empresarial Arábia Saudita-Portugal — criado em 2024 e presidido por Alwalid Albaltan —, integrou 15 decisores públicos, líderes empresariais e investidores sauditas

HealthNews (HN): Que balanço faz desta visita e que sinal concreto ela representa para a Tecnimede?

Miguel Ruas (MR): É um sinal claro do dinamismo do país e do seu foco em investir e criar pontes onde identifica potencial. Para nós, que trabalhamos diariamente para promover equidade e acesso à saúde por parte de todos e estando já a operar neste mercado foi, acima de tudo, uma janela de oportunidade para alinhar estratégias com as autoridades e perceber como podemos ter uma presença mais substantiva. Não se trata de mudar planos de um dia para o outro, mas de calibrar melhor o nosso caminho de crescimento num mercado que já consideramos prioritário.

HN: Para além da vontade de investir, que tipo de precauções é obrigatório ter em conta quando se pretende investir em novos mercados?

Chegada da Delegação da Arábia Saudita à sede da Tecnimede

MR: A principal cautela, que vai muito além da vontade política momentânea, é perceber a trajetória de longo prazo do país. Uma coisa é vender produtos, outra é criar raízes. Há uma pressão legítima, e não só na Arábia Saudita, para internalizar produção e conhecimento. Se a orientação futura for no sentido de um abastecimento estritamente local, teríamos de repensar o modelo. Investimos onde acreditamos que as regras do jogo têm solidez para uma década e meia, no mínimo.

Alwalid Albaltan, Presidente do Conselho Empresarial Arábia Saudita-Portugal

HN: Esse desejo de internalização coloca, inevitavelmente, a questão delicada da transferência de know-how. Como navegam esse tema?

 

MR: É um equilíbrio complexo. Desde a pandemia que a retórica da autonomia estratégica ganhou volume, o que é compreensível. O risco é que, se levado ao extremo, se criem barreiras que acabam por isolar as populações dos tratamentos mais inovadores. Os países mais pragmáticos percebem isso e procuram um meio-termo. Para uma empresa, porém, a possibilidade de ver o seu conhecimento específico diluído ou apropriado sob condições menos favoráveis é um risco real que pesa na balança de qualquer investimento significativo.


HN: Tendo em conta este equilíbrio de oportunidades e riscos, está em cima da mesa um avanço mais definitivo, com uma estrutura física no território?

MR: É um cenário que estamos ativamente a avaliar. A visita confirmou abertura e interesse, mas não nos precipitemos. A Arábia Saudita, tal como os Emirados Árabes Unidos, integra há tempo a nossa lista de mercados-foco para onde queremos levar uma presença mais forte e material. Estamos a trabalhar para perceber que forma poderá essa presença assumir, consoante as garantias e o enquadramento que se consolidarem.

MMM

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