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O aumento do número de doentes referenciados para a Consulta de Avaliação de Risco Infeccioso (CARI) do Serviço de Doenças Infecciosas do Hospital Curry Cabral estava a causar atrasos por vezes superiores a sete meses no início de terapêuticas imunomoduladoras para pessoas com Esclerose Múltipla. Esta situação, que punha em causa a gestão da doença, levou as equipas clínicas a unirem-se num esforço de redesenho do percurso do doente, num projeto impulsionado pela bolsa “Percurso do Doente Imunocomprometido”.
O coração da mudança foi uma maior aproximação entre o Centro de Responsabilidade Integrada de Esclerose Múltipla (CRI EM) do Hospital dos Capuchos, responsável pela referenciação, e a equipa da CARI. Em vez de um encaminhamento sistemático e potencialmente desnecessário, criou-se um filtro mais inteligente. A peça-chave foi um questionário estruturado de avaliação e estratificação do risco infeccioso, desenvolvido pela CARI em colaboração com o CRI EM e aplicado logo após o diagnóstico pela equipa de Esclerose Múltipla.
Com base numa pontuação obtida, os doentes são agora distribuídos por diferentes caminhos. Aqueles classificados com baixo risco infeccioso podem avançar para a vacinação e início da terapêutica sem necessidade de observação presencial na CARI, seguindo um protocolo estabelecido em conjunto. Os casos mais complexos ou que suscitam dúvidas são discutidos semanalmente em reuniões multidisciplinares entre infectologistas e neurologistas. Enfermeiros e farmacêuticos foram envolvidos no processo global, garantindo a sua integração nas diferentes etapas do percurso do doente. “Esta aproximação permitiu antecipar intervenções junto do doente, reduzir o número de doentes com necessidade de CARI e acelerar o início da terapêutica”, pode ler-se na documentação do projeto.
Apenas os casos que não ficam resolvidos nestas reuniões são referenciados para observação presencial no Curry Cabral, havendo ainda a possibilidade de acompanhamento por consulta telefónica. Dois meses após a implementação, os resultados preliminares mostram que 80% dos doentes discutidos em reunião tiveram a sua gestão de risco optimizada sem consulta adicional. Cerca de 40 doentes conseguiram antecipar o início da terapêutica para a Esclerose Múltipla em aproximadamente cinco meses, um ganho crucial para travar a progressão da doença.
Diana Póvoas, coordenadora da CARI, enfatiza a filosofia do trabalho: “Melhorar a acessibilidade aos cuidados, antecipar necessidades e simplificar percursos são passos essenciais para garantir uma prevenção eficaz da infecção em populações vulneráveis”. A coordenadora do CRI EM, na sua declaração, sublinha que o projecto uniformizou a avaliação de risco e optimizou as estratégias de vacinação, considerando a colaboração “um modelo de boas práticas, com potencial de replicação noutras áreas assistenciais”.
O projeto, que focou inicialmente a população com Esclerose Múltipla, tem um âmbito mais ambicioso. A ULS São José segue cerca de 11.000 pessoas imunocomprometidas, incluindo pessoas que vivem com VIH, e o modelo está desenhado para ser escalável. A intervenção da equipa da Nobox, composta por profissionais de saúde com formação em design de serviços, centrou-se na imersão no contexto real, através de observações e entrevistas, para mapear a jornada do doente e identificar pontos críticos de fragmentação.
Os próximos passos passam por avaliar o impacto das medidas na cobertura vacinal e nos internamentos por infecção, alargar o projeto a outras áreas clínicas e desenvolver ferramentas digitais que facilitem o registo e a planificação.
PR/HN/MM



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