Setor Social Pode Reafetar Vagas para Libertar Camas Hospitalares

21 de Janeiro 2026

Entidades do setor social e solidário têm agora um prazo de três meses para pedir a afetação de vagas já existentes para "camas intermédias", numa tentativa de acolher utentes com alta clínica e reduzir os internamentos sociais nos hospitais. O Governo prevê a criação de 400 novas vagas, que podem incluir lugares já disponíveis mas reorientados para este fim.

As instituições particulares de solidariedade social ou legalmente equiparadas dispõem de um trimestre para solicitar ao Instituto da Segurança Social a conversão de lugares que já gerem. A medida, publicada em Diário da República, visa criar uma rede de acolhimento transitório que funcione como amortecedor entre o hospital e a resposta social definitiva, ou o regresso a casa.

Dois caminhos se apresentam às entidades que queiram aderir. Podem criar unidades intermédias autónomas, transitórias e com capacidade para 20 pessoas, ou então converter vagas preexistentes em respostas sociais, como Lares Residenciais ou Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas, em “camas intermédias”. O objetivo é claro: evitar que pessoas com alta médica assinada continuem ocupando um leito hospitalar, simplesmente porque não têm para onde ir.

Há, contudo, regras apertadas. Esta solução é pensada como excecional e temporária, um remendo para uma situação que se arrasta. Só pode ser usada quando, definida a resposta social mais adequada, não haja vaga disponível de imediato. O encaminhamento cabe ao ISS, que articula com a Direção Executiva do SNS e os serviços sociais hospitalares.

As instituições que convertam vagas terão de as manter reservadas, recebendo por isso 40% da comparticipação financeira estipulada, mesmo que a cama esteja vazia. Se recusarem o acolhimento quando existe vaga, perdem o direito a esse apoio. O recurso ao setor privado só é admitido no limite, quando se esgotem as possibilidades no setor social e solidário.

A portaria esmiúça ainda as questões financeiras. A comparticipação familiar será calculada com base nas regras das ERPI, deduzida ao montante que o Estado suporta. Já a fatia dos medicamentos fica a cargo do utente ou da sua família, com as habituais comparticipações. Nos casos de carência comprovada, poderá ser o hospital de origem a assumir essa despesa, um detalhe que tenta colmatar situações de grande fragilidade.

A medida surge num contexto de sobrelotação hospitalar crónica, onde as chamadas “altas sociais” – pacientes que deixaram de precisar de cuidados hospitalares mas não têm suporte familiar ou social – representam um nó difícil de desatar. A aposta em “camas intermédias” é, no fundo, uma tentativa de ganhar tempo e espaço, transferindo o problema para uma estrutura mais adequada e, sobretudo, menos onerosa do que um bloco operatório.

NR/HN/Lusa

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

Estudo revela que 7 em cada 10 mulheres com enxaqueca hormonal não recebem tratamento personalizado

Um estudo da European Migraine and Headache Alliance (EMHA), realizado em colaboração com a MiGRA Portugal, revelou que 70% das mulheres que sofrem de enxaqueca hormonal não recebem um tratamento adaptado ao seu padrão de sintomas. A investigação envolveu 5.410 participantes de 13 países europeus, incluindo 464 respostas de Portugal, e foi apresentada recentemente no Parlamento Europeu.

Bastonário acusa Direção Executiva do SNS de limitar consultas e cirurgias em 2026

A Ordem dos Médicos manifestou preocupação com a orientação da Direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde (SNS) para travar, em 2026, o aumento de consultas e cirurgias nos hospitais e limitar o reforço de recursos humanos e financeiros, considerando que a medida poderá agravar a pressão já existente sobre o sistema e ter impacto negativo na resposta aos doentes.

Ordem dos Médicos lamenta morte de Joaquim Fidalgo Freitas

O antigo diretor do departamento de psiquiatria de Viseu e fundador da Associação Portuguesa para as Perturbações dos Desenvolvimento e Autismo (APPDA) de Viseu, Joaquim Fidalgo Freitas, morreu na segunda-feira aos 78 anos.

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights