Colapso anunciado: 60% das vagas para médicos de família voltam a ficar vazias

22 de Janeiro 2026

O concurso de segunda época para médicos recém-especialistas falhou no preenchimento de mais de 60% das vagas em Medicina Geral e Familiar, agravando o défice histórico que deixa dezenas de milhares sem médico atribuído, com a região de Lisboa a ser a mais penalizada

O sistema nacional de saúde viu-se novamente confrontado com uma falha estrutural de recrutamento. Das 142 vagas abertas na segunda fase do concurso para especialistas em Medicina Geral e Familiar (MGF), apenas 50 foram ocupadas, uma taxa de insucesso que ronda os 65%. Os números, fornecidos pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) e a que a Lusa teve acesso, ilustram uma dificuldade persistente em atrair médicos para a especialidade que constitui a base dos cuidados primários. A situação assume contornos dramáticos na região de Lisboa e Vale do Tejo, onde, de 84 lugares disponíveis, apenas 24 foram preenchidos, ficando mais de 70% por cobrir. Cada um destes profissionais teria, em teoria, a seu cargo uma lista média de 1.550 utentes, o que significa que este insucesso deixa pelo menos 77.500 pessoas, destas mais de 37 mil na zona de Lisboa, sem a hipótese imediata de obter um médico de família. A notícia não é totalmente negativa noutras geografias. A região Norte, por exemplo, viu 15 das suas 18 vagas serem ocupadas, e a ULS da Amadora Sintra conseguiu preencher nove das suas 12 vagas. Mas os dados globais são desoladores: no Centro, oito ocupações em 29 vagas; no Alentejo, duas em oito; no Algarve, uma em três. Em comparação com o ano de 2024, a segunda fase deste ano revela uma quebra acentuada, já que no ano passado tinham sido ocupadas 63 vagas em MGF, de um total de 225 disponíveis. Já na especialidade de Saúde Pública o cenário foi francamente positivo, com 15 das 17 vagas a serem preenchidas, ficando apenas duas por ocupar, uma na ULS da Guarda e outra na ULS do Alto Alentejo. No balanço global de 2025, somando as duas fases de concurso, foram ocupadas 281 vagas em MGF, um número que permitirá, na prática, atribuir médico a cerca de 435.550 utentes. Contudo, o ritmo de colocação continua aquém das necessidades prementes sentidas nos centros de saúde, que acumulam listas de utentes sem médico designado há anos, num problema que se arrasta e que este concurso veio, mais uma vez, confirmar.

NR/HN/Lusa

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