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A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) aponta, num comunicado divulgado a partir de Nova Iorque, um saldo de custos humanos catastróficos um ano após a implementação dos profundos cortes da administração norte-americana a programas de saúde e ajuda humanitária. Mihir Mankad, diretor de políticas da delegação da MSF nos Estados Unidos, não hesita em classificar a movimentação como um “afastamento alarmante” dos princípios fundamentais que historicamente guiaram a assistência. O tom é de alarme perante o que descreve como uma estratégia recalcada, moldada por cálculos políticos e negociações à porta fechada.
Embora não receba financiamento direto de Washington, a MSF sustenta que as suas equipas em terreno foram testemunhas oculares, ao longo de 2025, do impacto devastador do recuo norte-americano. Os exemplos que apresenta são concretos e carregados de números. Na Somália, a interrupção dos carregamentos de leite terapêutico durante meses coincidiu com um aumento de cerca de 73% nas admissões de crianças gravemente desnutridas em estruturas apoiadas pela organização, no comparativo entre os primeiros nove meses de 2024 e o mesmo período de 2025. Só no Hospital Regional de Baidoa Bay, o número de mortes cresceu 44% no primeiro semestre do ano passado.
Noutras geografias, o cenário repete-se com contornos sombrios. Num hospital do Sudão do Sul, os cortes no financiamento forçaram a interrupção do apoio a 54 funcionários em junho, criando falhas gritantes nos cuidados maternos que ali eram prestados. Já na República Democrática do Congo, uma encomenda vital de 100 mil kits pós-violação — contendo medicamentos para prevenção do HIV e outras infeções — foi simplesmente cancelada, deixando uma população vulnerável ainda mais exposta.
Para a MSF, contudo, estes casos não são meros acidentes de percurso ou efeitos colaterais de uma contenção orçamental. Eles simbolizam, na leitura da organização, uma mudança de filosofia profunda e preocupante. A lançada Estratégia de Saúde Global “America First”, apresentada em setembro passado, é vista como a pedra angular desta nova abordagem, que reduz ostensivamente o apoio e o condiciona a uma lógica de transação. Mankad fala de uma “abordagem negociada à porta fechada”, estabelecida através de acordos bilaterais com os governos recetores, mas sem a participação da sociedade civil ou das comunidades diretamente afetadas.
A acusação torna-se mais severa: a MSF alega que a administração norte-americana tem pressionado ativamente os países beneficiários para restringirem o acesso a serviços de saúde, com base em linhas ideológicas, particularmente nos domínios da saúde sexual e reprodutiva. “A alegação de que estes acordos promovem a soberania nacional soa vazia”, argumenta Mankad, “quando, ao mesmo tempo, temos funcionários do Departamento de Estado a dizer abertamente aos países que a assistência global à saúde está condicionada à sua disponibilidade para fechar um acordo de minerais com os EUA”.
O responsável conclui com uma defesa intransigente dos princípios que, na sua ótica, estão a ser abandonados. A assistência global em saúde, insiste, deve ser orientada pela necessidade de saúde pública, por evidências médicas sólidas e pela epidemiologia. Não por aquilo que classifica, sem rodeios, como “cálculos políticos grosseiros, exploração económica ou coerção ideológica”. O comunicado da MSF serve assim como um documento de acusação, um registo de um ano de consequências e um alerta sobre o rumo futuro da ajuda norte-americana, cujos efeitos, garantem, já se medem em vidas perdidas.



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