Exposição de Jovens a Conteúdos Online Nocivos: Por que a Restrição Total Não é a Solução

22 de Janeiro 2026

Um estudo representativo realizado em Portugal, que envolveu 2.071 jovens entre os 10 e os 21 anos, analisou a exposição destes a ‘cyberbullying’ e a outros conteúdos online prejudiciais, como violência, automutilação e suicídio. 

A investigadora responsável, Mariana Rodrigues, professora da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, sublinha que uma restrição total, seja parental ou legislativa, não é a solução mais eficaz para mitigar estes riscos. Em vez disso, defende uma maior regulamentação e controlo dos algoritmos das plataformas digitais, que facilitam a publicação e recomendação de conteúdos potencialmente nocivos a crianças e jovens.

O estudo revelou que 61,1% dos jovens foram expostos a conteúdos sobre violência, ódio, automutilação ou métodos de suicídio de forma não intencional, sendo que 67,1% dos entrevistados afirmaram ter ficado perturbados com o que viram. Mariana Rodrigues destaca que, embora seja fundamental capacitar crianças e jovens para uma utilização mais responsável das tecnologias, a responsabilidade não deve recair exclusivamente sobre eles ou sobre as famílias, mas também sobre as próprias plataformas digitais.

A investigadora alerta para a limitação das restrições legislativas implementadas noutros países, que frequentemente carecem de mecanismos eficazes para controlar o acesso dos jovens com base na idade, o que leva os jovens a encontrar formas alternativas de aceder a conteúdos proibidos. O estudo também evidenciou que posturas parentais restritivas, baseadas em proibições técnicas e controlo rigoroso, não apresentam impacto significativo na redução dos efeitos negativos do ‘cyberbullying’ e da exposição a conteúdos danosos.

Por outro lado, uma parentalidade ativa, caracterizada por diálogo aberto, atenção e comunicação sem tabus, mostra-se mais eficaz não só em reduzir a prevalência dessas experiências negativas, mas sobretudo em atenuar as suas consequências no bem-estar psicológico e na saúde mental dos jovens. A investigadora defende que as regras devem ser negociadas e que a educação para a literacia digital, especialmente nas escolas, deve ser uma prioridade, reconhecendo que a tecnologia e a digitalização são processos irreversíveis.

Esta abordagem integrada, que combina regulação dos conteúdos, maior responsabilidade das plataformas e mediação parental aberta e informada, é apontada como o caminho mais adequado para enfrentar os desafios que a exposição a conteúdos prejudiciais online representa para a juventude portuguesa.

lusa/HN

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

Carnaval de Torres Vedras suprimido por imperativos de segurança climática

A organização do Carnaval de Torres Vedras anunciou a suspensão de todos os eventos programados entre 12 e 18 de fevereiro. A decisão, tomada face aos estragos causados por condições meteorológicas extremas, coloca em pausa uma das celebrações carnavalescas de maior raiz popular no país

Portugal reforça apoio médico a Moçambique após cheias

Uma nova missão humanitária portuguesa entregará medicamentos e dispositivos médicos a Moçambique na próxima segunda-feira. O apoio surge no seguimento da operação KANIMAMBO, que já prestou centenas de consultas e distribuiu toneladas de alimentos e bens de primeira necessidade às vítimas das inundações que afetam o país desde janeiro

Família sueca vive um mês sem plástico em experiência radical

Uma família sueca removeu quase todo o plástico de sua casa durante um mês, num estudo conduzido pela Universidade KTH. A experiência visou documentar a presença ubíqua do material e testar alternativas sustentáveis no dia a dia

Implante cerebral inovador combina luz, som e medicamentos

Investigadores desenvolveram um novo tipo de implante cerebral, macio e ultrafino, capaz de estimular neurónios com luz, registar atividade elétrica e administrar fármacos em diferentes profundidades do cérebro simultaneamente. A tecnologia promete revolucionar a investigação neurológica e abre portas a futuros tratamentos para doenças como a epilepsia

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights