![]()
Paulo Paço, líder da Associação Nacional dos Técnicos de Emergência Médica, criticou duramente a atuação do Ministério da Saúde e da direção do INEM durante a paralisação de 2024, afirmando que decisões erradas e uma leitura falha da realidade agravaram a situação.
O presidente da Associação Nacional dos Técnicos de Emergência Médica (ANTEM) não poupou críticas à forma como foi conduzida a crise durante a greve às horas extraordinárias no INEM, no final de 2024. Perante os deputados da comissão parlamentar de inquérito, Paulo Paço deixou claro que tanto a tutela política como a direção do instituto tomaram opções que, no seu entender, estavam longe de ser as mais corretas. A greve, que se circunscrevia apenas ao banco de horas extra, acabou por ter um impacto operacional brutal que, segundo o mesmo responsável, apanhou as autoridades completamente desprevenidas.
“A ideia que nos transmitiram é que ninguém esperava que a greve tivesse o impacto que teve e que aparecessem tão poucos técnicos para trabalhar”, confessou Paço durante a audição. Esta surpresa, defendeu, revela uma falta gritante de preparação e uma leitura errada do terreno e do estado de espírito dos profissionais. O dirigente associativo lembrou, com algum detalhe, que a paralisação era de âmbito muito limitado, um facto que devia ter permitido uma resposta mais ajustada. “Recordo que esta greve era apenas única e exclusivamente às horas extraordinárias”, frisou, sublinhando a aparente desproporção entre a causa do protesto e a dimensão do caos que se gerou.
O período conturbado ficou ainda marcado por 12 mortes, três das quais a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) associou posteriormente a atrasos no socorro. Paço não estabeleceu uma ligação direta de causa e efeito durante a sua intervenção, mas o contexto pesou no ambiente da audição. A sua crítica estendeu-se também a figuras-chave, como o então presidente do INEM, Sérgio Dias de Janeiro. O líder da ANTEM revelou ter chegado a pedir publicamente a sua demissão, acusando-o de quebrar um compromisso de diálogo que havia sido assumido com a associação. Essa rutura, na sua narrativa, não foi um mero episódio pessoal, mas sim sintoma de um problema mais fundo: a falta crónica de coordenação e de escuta que contribui para decisões desajustadas e para a persistência de males estruturais no pré-hospitalar.
A comissão parlamentar de inquérito, proposta pela Iniciativa Liberal e com 90 dias para apurar responsabilidades políticas, técnicas e financeiras, retomou os trabalhos após uma pausa por causa das eleições presidenciais. No terceiro dia de audições, o depoimento presencial de Paulo Paço foi seguido pela inquirição, por videoconferência, de Carlos Silva, da Sociedade Portuguesa de Emergência Pré-Hospitalar. Um processo longo que envolve cerca de noventa entidades e que promete continuar a escavar as fragilidades de um sistema que, naquele final de 2024, mostrou as suas costuras a abrir de forma tão visível e trágica.
NR/HN/Lusa



0 Comments