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Os corpos de Anas Ghneim, Mohammed Salah Qashta e Abdoul Raouf Shaath, de 34 anos, foram recuperados na zona de al-Zahra e transportados para o Hospital dos Mártires de al-Aqsa, em Deir el-Balah. A informação foi confirmada pela Defesa Civil palestiniana, que opera sob controlo do movimento Hamas. A mesma fonte descreveu o alvo como um “veículo civil”, um ponto que permanece em disputa. No terreno, uma testemunha contactada pela France-Presse contou uma história diferente: os profissionais estavam a utilizar um drone para filmar a operação de auxílio gerida pelo Comité Egípcio de Socorro quando o veículo que os acompanhava foi atingido.
O exército israelita, num comunicado enviado à comunicação social, não comentou directamente o alegado contexto humanitário. Em vez disso, justificou a ação afirmando que forças identificaram “vários suspeitos a operar um drone afiliado ao Hamas”. O drone, sustentou o comunicado, representava uma “ameaça para as tropas”, levando a um ataque “de precisão” contra os homens que o manuseavam. O texto prometeu uma análise dos pormenores, mas não apresentou provas imediatas da alegada filiação dos jornalistas ao grupo armado.
A reação não se fez esperar. O Sindicato dos Jornalistas Palestinianos acusou Israel de seguir uma “política sistemática e deliberada” para eliminar repórteres no território. Do lado internacional, o Comité para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), através da sua diretora para o Médio Oriente, Sara Qudah, exigiu uma “investigação transparente”. Qudah lembrou que Israel, com a sua “tecnologia avançada”, tem a obrigação de proteger os jornalistas. O Hamas, por sua vez, qualificou o evento como um “crime de guerra”, um epíteto comum no seu discurso, mas significativamente não reivindicou qualquer ligação dos falecidos com a sua estrutura militar.
Este incidente ocorre no quadro frágil de uma trégua precária em vigor desde outubro, uma fase inicial do plano de paz norte-americano. O acordo tem sido minado por incidentes quase diários. O Ministério da Saúde de Gaza, administrado pelo Hamas, reporta que quase 470 palestinianos morreram desde que o cessar-fogo entrou em vigor. O exército israelita, na sua contabilidade, registou a morte de três soldados no mesmo período. Para as organizações de defesa da liberdade de imprensa, os números são avassaladores. A Repórteres Sem Fronteiras afirma que, só no último ano, as forças israelitas mataram pelo menos 29 jornalistas palestinianos em Gaza. Desde o início do conflito em outubro de 2023, o total ultrapassa os 220, fazendo do território palestiniano o local mais perigoso do mundo para o exercício do jornalismo.
A morte de Abdoul Raouf Shaath ressoa de forma particular na comunidade jornalística. Trabalhador independente, ele era um colaborador regular da Agence France-Presse depois da retirada do pessoal efetivo da agência de Gaza, no princípio de 2024. A sua morte, e a dos colegas, coloca novamente um holofote sobre os perigos extremos enfrentados pelos repórteres locais, que muitas vezes são os únicos olhos do mundo sobre uma crise humanitária descrita como crítica. A distribuição de ajuda, cena que tentavam captar, permanece um processo caótico e perigoso na Faixa de Gaza sitiada.
NR/HN/Lusa



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