Um Ano de APCCEREBRO: Apoio Psicológico e Linha Telefónica Marcam Primeiras Conquistas

22 de Janeiro 2026

A Associação Portuguesa do Cérebro celebra o seu primeiro aniversário com um balanço positivo, destacando a criação de um serviço de apoio psicológico gratuito e uma linha telefónica de suporte emocional para doentes, familiares e cuidadores. Os desafios passam agora por consolidar estas respostas e avançar na investigação

Um ano após a sua fundação, a Associação Portuguesa do Cancro no Cérebro (APCCEREBRO) traça um caminho que começou na perceção de uma falha. Renato Daniel, seu presidente, recorda a génese da organização, nascida da “falha de acompanhamento e de informação acessível e credível” para quem enfrenta tumores do sistema nervoso central. A ideia de que a união faz a força materializou-se, mas o estigma, aquele que pinta o diagnóstico como uma sentença de morte definitiva, persiste. “Mas embora existam, de facto, diagnósticos com taxas de mortalidade elevadas, há hoje soluções, caminhos e abordagens que vão muito além dessa visão”, insiste Daniel.

Foi um percurso intenso, feito de campanhas de sensibilização e atividades que tentaram mobilizar a sociedade. No entanto, o orgulho mais substantivo, aquele que Renato Daniel descreve com um tom visivelmente satisfeito, prende-se com a construção prática de uma rede de suporte. “Criar, em apenas um ano, uma estrutura de apoio psicológico e emocional robusta, totalmente assente em voluntariado” é apresentado como a conquista maior. Um serviço gratuito que tenta colmatar uma lacuna sentida no próprio Serviço Nacional de Saúde e que prova, nas palavras do presidente, o “papel ativo e complementar” do setor social.

A esta estrutura junta-se outra, a linha telefónica de apoio emocional. Desenvolvida em parceria com a Associação Académica de Coimbra e a SOS Estudante, pretende ser um porto de abrigo sonoro para momentos de solidão ou fragilidade extrema. “Uma voz disponível para escutar e apoiar”, define.

Apesar do trabalho desenvolvido, a associação, naturalmente jovem, reconhece as dificuldades em alcançar todos os doentes. Estão ainda numa fase de divulgação junto da comunidade médica e dos próprios utentes. Mesmo assim, há histórias que ficam. Renato Daniel partilha, com a emoção própria de quem ouve relatos no dia a dia, o testemunho de um doente que contactou a APCCEREBRO após receber, num hospital, um prognóstico que não deixava margem para alternativa. “Estava apenas a ser acompanhado com medicação para garantir algum conforto no fim de vida”, relata. O contacto com a associação e a partilha de experiências de outros doentes trouxeram-lhe um novo rumo. Conseguiu estabilizar a doença e, mais do que isso, “recuperar alguma esperança”. “É isso que justifica tudo o que fazemos”, remata o presidente.

Olhando para a frente, os desafios condensam-se em três frentes. A primeira é óbvia: reforçar o gabinete psicológico e a linha de apoio, atraindo mais voluntários e profissionais, e melhorando a articulação com os hospitais. A segunda é a eterna questão do financiamento. A terceira, mais ambiciosa, é entrar no domínio da investigação científica. O relançamento do website para disseminar informação credível é um passo, mas a associação quer ir mais longe, apoiando “iniciativas de investigação na área dos tumores do sistema nervoso central” já no próximo ano.

Em paralelo, a APCCEREBRO prepara o lançamento do inquérito nacional “Viver com Glioma 2026”, uma iniciativa pioneira desenvolvida com a farmacêutica Servier Portugal. O estudo, que se encontra em curso e disponível para preenchimento online, visa mapear o impacto real da doença. Para a associação, é um passo fundamental para dar voz aos doentes e, quem sabe, moldar futuras respostas. Tudo porque, no fim de contas, um diagnóstico não tem de ser apenas o que inicialmente parece.

PR/HN/MM

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

Estudo liga consumo de vídeos curtos a menor envolvimento escolar

Duas investigadoras da Universidade de Macau concluíram que vídeos de formato curto usados nas redes sociais e vistos em “scrolling” nos telemóveis impactam negativamente o desenvolvimento cognitivo das crianças, podendo causar ansiedade social e insegurança.

Sobrecarga e falta de pessoal desgastam enfermeiros noruegueses

Mais de 18 mil enfermeiros participaram no mais recente inquérito sobre o ambiente psicossocial de trabalho, revelando que a pressão aumentou no último ano, sobretudo nos lares e nos cuidados domiciliários municipais. Metade dos gestores admitiu ter sofrido cortes de pessoal

IA prevê recuperação de doentes após operação à anca

Um modelo de inteligência artificial desenvolvido por engenheiros alemães consegue antecipar, com base na análise da marcha, o grau de recuperação de doentes submetidos a uma artroplastia da anca. A ferramenta, testada em mais de uma centena de pacientes, permite agrupar padrões de movimento e adaptar a reabilitação. A investigação, do Instituto de Tecnologia de Karlsruhe (KIT) e da Universidade de Frankfurt, foi publicada na Arthritis Research & Therapy

Diacereína reemerge como potencial modificador da artrite reumatoide

Uma revisão de estudos clínicos e pré-clínicos publicada na Acta Materia Medica reacende o interesse na diacereína, um derivado antraquinónico, para o tratamento da artrite reumatoide. O fármaco, conhecido pelas propriedades anti-inflamatórias e condroprotetoras, atua pela supressão da interleucina-1β, mediador central da inflamação sinovial e da degradação da cartilagem, diferenciando-se dos anti-inflamatórios não esteroides convencionais

Peso a mais pode ameaçar a visão dos cães, revela estudo

Uma investigação da Universidade Hebraica de Jerusalém estabelece uma ligação direta entre o excesso de peso canino e o aumento da pressão intraocular, um dos principais fatores de risco para o glaucoma, doença que pode conduzir à cegueira. Os resultados indicam que, por cada ponto ganho na escala de condição corporal, a pressão ocular sobe, em média, 1,9 mmHg

Reserva cerebral: treino cognitivo ao longo da vida atrasa efeitos do Alzheimer

Uma equipa do Instituto de Neurociências da Universidade de Barcelona (UBneuro) descobriu que a estimulação cognitiva precoce e sustentada ajuda a preservar a conectividade cerebral e a memória na doença de Alzheimer, mesmo em fases avançadas da patologia. Publicado na revista iScience, o estudo, realizado com modelos animais, revela ainda que os machos respondem melhor do que as fêmeas à intervenção cognitiva para atrasar o aparecimento da doença

Robô guiado por humanos para tratar cancro sem cirurgia radical

Homens com cancro da próstata enfrentam muitas vezes um dilema: ou a remoção completa do órgão, com risco de incontinência e impotência, ou a vigilância apreensiva. Um projeto europeu testa uma terceira via com recurso à robótica e inteligência artificial para destruir apenas o tumor

Metade dos pesticidas usados na América Latina é proibida na Europa

Um estudo publicado esta semana revela que 48,9% dos ingredientes ativos de pesticidas autorizados nas principais culturas agrícolas de oito países da América Latina são banidos ou não aprovados na União Europeia, devido a riscos para a saúde e ambiente. Costa Rica, México e Brasil lideram o ranking de substâncias permitidas que são vetadas no bloco europeu. Investigadoras associam a exposição crónica a tumores mais agressivos e à contaminação do leite materno

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights