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A Human Rights Watch (HRW) voltou a acionar o alarme sobre a maior mina de ouro da Etiópia, exigindo a suspensão imediata das suas operações. O motivo central, agora, são as crianças. Num apelo urgente dirigido ao Comité dos Direitos da Criança da ONU, que em breve analisará o país, a organização documenta exposições preocupantes a substâncias tóxicas que ameaçam o desenvolvimento e a vida dos mais novos.
O foco está na mina de Lega Dembi, um empreendimento crucial para a economia nacional, localizado a cerca de 500 quilómetros a sul de Adis Abeba. O local tem um historial conturbado. As atividades foram paradas em 2018, depois de protestos populares que vincaram as consequências nefastas para a saúde. Na altura, o governo prometeu que só autorizaria o reinício após a implementação de medidas ambientais sérias. Contudo, segundo a HRW, a reabertura aconteceu em 2021, “sem anúncio público” e num clima de opacidade. A organização afirma ainda que as autoridades chegaram a cancelar a divulgação de um estudo oficial sobre saúde, levantando questões sobre transparência.
No terreno, a realidade descrita é sombria. Investigações independentes, citadas pela HRW, revelam níveis elevados de metais pesados como cádmio, mercúrio, chumbo e arsénico no ambiente. Estas substâncias, de efeitos cumulativos, estão associadas a danos neurológicos graves, problemas no desenvolvimento e complicações na gravidez. As queixas das comunidades são antigas e consistentes: falam de abortos espontâneos repetidos e de crianças que nascem com condições de saúde debilitantes e prolongadas, num padrão que os residentes ligam diretamente à mineração.
Perante este quadro, o pedido da organização de direitos humanos é claro. Quer que o comité da ONU exorte o governo etíope a suspender de vez a exploração em Lega Dembi até ser garantida a segurança ambiental. Paralelamente, defende que as vítimas destes supostos abusos devem ter acesso a reparação, incluindo indemnizações adequadas, cuidados médicos especializados e mecanismos de justiça. A pressão internacional é vista como crucial num país frequentemente criticado pelo seu registo em matéria de direitos humanos.
O dilema coloca-se entre a saúde pública e a necessidade económica. A Etiópia, um dos países mais populosos de África, atravessa sérias dificuldades financeiras. O ouro é um pilar das exportações, tendo gerado, apenas nos primeiros nove meses de 2024, cerca de 2,1 mil milhões de dólares, de acordo com dados do Ministério das Minas. Este valor representa uma entrada vital de divisas, tornando qualquer decisão de encerramento politicamente complexa e economicamente sensível. Enquanto se debate o futuro da mina, as comunidades de Lega Dembi continuam a viver com o fardo de uma prosperidade nacional que, alegam, os está a envenenar.
NR/HN/Lusa



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