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Perante os deputados da comissão de inquérito, Luís Canaria não usou meias palavras. O presidente da ANTEPH descreveu um sistema de socorro com lacunas profundas, onde a rede de serviços de proximidade brilha pela sua ausência e o hospital surge como destino quase único. Esta realidade, sustentou, está a asfixiar os cuidados de urgência de forma insustentável. “Não podemos ter uma rede em que todos os serviços acabam por ir parar ao hospital”, afirmou, num tom que misturava a frustração de quem vive o problema no terreno com a frieza dos números.
A questão da greve ao final de 2024, com os trágicos registos de doze mortes, três das quais ligadas a atrasos conforme a IGAS, pairou sobre a audiência. Canaria evitou um comentário direto sobre as responsabilidades sindicais, mas deixou no ar uma crítica subtil à gestão do INEM. Referiu que a pluralidade de representações dos trabalhadores “terá gerado alguma confusão” do lado da direção do instituto. E, num aparte revelador, lembrou que muitos técnicos já laboram há anos em condições piores do que os supostos serviços mínimos decretados para as greves. “Quem é técnico sabe que, muito antes das greves, se trabalhou muitos dias muito abaixo”, realçou, num momento de clara emoção contida.
O dirigente avançou depois para um território espinhoso: a formação. Defendeu com convicção um modelo que escape ao monopólio das escolas médicas e integre as instituições de Ensino Superior, criticando a atual “indefinição” sobre percursos e qualificações. “O que é necessário é dizer: o curso é este. Os níveis são estes”, salientou, num pragmatismo que soou a um grito por ordem num setor desorganizado.
As críticas estenderam-se a medidas recentes, como a recolocação de enfermeiros nos CODU, vista como um fardo extra para uma classe já exausta. No final, o apelo foi político. Canaria pressionou por uma nova lei orgânica para o INEM e pela transferência de competências, argumentando que só assim se restaura a confiança. “É preciso que o compromisso político se traduza em vidas salvas”, frisou, deixando a frase a ecoar na sala. A CPI, que ouviu também o sindicato STTS, tem ainda um longo caminho pela frente, com dezenas de entidades por escutar, numa missão que promete revelar mais fragilidades do que certezas.
NR/HN/Lusa



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