![]()
O recente concurso para colocação de especialistas em Medicina Geral e Familiar pintou um retrato pouco animador sobre a capacidade de atração do Serviço Nacional de Saúde. Das 142 vagas abertas, apenas cerca de 50 foram ocupadas, segundo dados a que a Lusa teve acesso. Um detalhe salta à vista e preocupa a Ordem dos Médicos: só 12 dos profissionais colocados eram médicos que se encontravam fora da estrutura pública. A esmagadora maioria dos lugares foi tomada por recém-especialistas que terminaram a formação no final de 2025.
Carlos Cortes, bastonário da Ordem, não esconde o desalento. Comenta que os médicos fora do SNS “continuam a não se sentir atraídos por ele”, num fenómeno que tem vindo a acentuar-se. A atração que existia há uns anos esfumou-se, deixando o caminho livre para que os clínicos escolham outras vias. O setor privado, a prestação de serviços ou a emigração surgem como alternativas mais sedutoras, num êxodo silencioso que deixa os cuidados de saúde primários à beira de um fio. Para Cortes, a razão é clara e prende-se com uma falta de competitividade gritante. “O que constatámos é que parece não haver vontade do Ministério da Saúde de dar o impulso ao SNS para ser mais competitivo”, afirmou, criticando a aposta continua do ministério em situações de contingência, que são pouco mais do que um paliativo.
A solução, defende a Ordem, terá de passar por uma mudança estrutural. Já foi apresentado ao Governo um pacote com 25 medidas que tentam travar a hemorragia. O documento é abrangente e toca em pontos sensíveis. Propõe horários flexíveis, publicados com quatro semanas de antecedência, e medidas concretas para garantir a segurança dos profissionais nos locais de trabalho, num tempo em que a violência contra médicos ganhou contornos preocupantes. A nova carreira médica é outro pilar fundamental, devendo começar logo no internato e ser comum aos setores público, privado e social, para criar um percurso profissional coerente e previsível.
O pacote da Ordem não se fica por aqui e esmiúça mecanismos práticos. Concursos céleres e calendarizados, tanto para entrada como para progressão, são vistos como essenciais para dar estabilidade. Para as áreas mais carenciadas, desenhadas no mapa como autênticos desertos médicos, são propostos incentivos financeiros e um apoio logístico que vá além do profissional. Creches, escolas e ajuda para a integração do cônjuge no mercado de trabalho fazem parte de um modelo que reconhece uma verdade simples: a fixação de um médico depende tanto da sua qualidade de vida como das condições oferecidas à sua família.
Os números globais de 2025, somando os dois concursos realizados, mostram que foram ocupadas 281 vagas de médicos de família recém-especialistas. Esse esforço permitiu que mais 435.550 utentes tivessem, finalmente, um médico atribuído. Contudo, o alívio é relativo. Os dados do portal da transparência do SNS referentes a novembro de 2025 revelam uma pressão constante: mais de 10,7 milhões de utentes inscritos nos cuidados primários, um número que não para de crescer desde março de 2024. Desses, cerca de 1,5 milhões continuavam, naquele outono, sem um médico de família que luisse guiasse pelo sistema. Um vazio que este último concurso ficou longe de colmatar, deixando no ar uma interrogação sobre o futuro da proximidade na saúde em Portugal.
NR/HN/Lusa



0 Comments