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O hemiciclo da Assembleia da República uniu-se num silêncio carregado de memória para aprovar, com rara unanimidade, um voto de pesar pela morte de Eurico Figueiredo. A proposta partiu do PS, partido onde militou após o 25 de Abril, mas a homenagem atravessou todo o arco parlamentar, reconhecendo o percurso de um homem que se confunde com a luta contra a ditadura e a construção do regime democrático. Figueiredo, transmontano de Vila Real, faleceu no passado dia 27 de dezembro, deixando para trás oito décadas e meia de uma vida de combate político e dedicação à medicina.
Eurico Brilhante Dias, líder da bancada socialista, foi o encarregado de ler o texto no plenário. A sua voz, por vezes mais grave, percorreu os capítulos de uma biografia precocemente marcada pela resistência. Aos 16 anos, Figueiredo já integrava o Movimento de Unidade Democrática (MUD). Dois anos mais tarde, metia-se de corpo e alma na campanha presidencial, tão épica quanto fracassada, do general Humberto Delgado. A cidade de Lisboa, onde foi estudar Medicina, moldou o militante. Presidiu à Comissão Pró-Associação dos Estudantes da sua faculdade e emergiu como uma das vozes mais incómodas durante a crise académica de 1962. Nesse mesmo ano, ascendeu a primeiro secretário-geral do Secretariado Nacional dos Estudantes Portugueses, um cargo que era um alvo pintado no peito.
A polícia política do regime, a PIDE, não perdeu tempo. A sua primeira prisão ocorreu em maio de 1962, no Aljube. A notícia da sua detenção ateou o rastilho de manifestações de solidariedade, cruelmente desmanteladas pela força. Acabaria por ser encarcerado três vezes ao todo. O seu percurso na oposição radicalizou-se: integrou a Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN) e, no exílio forçado na Suíça a partir de 1965, chegou a militar no Partido Comunista Português, uma ligação que cortaria em 1967.
Com a Revolução dos Cravos, Eurico Figueiredo regressou a um país diferente. Escolheu o Partido Socialista para continuar a ação política. A medicina e a academia nunca foram abandonadas, mas a chamada da representação popular surgiu. Foi eleito deputado pelo círculo do Porto na III Legislatura e, mais tarde, por Vila Real, a sua terra natal, nas VI e VII Legislaturas. No parlamento, a sua experiência de vida dava-lhe uma autoridade singular, por vezes austera.
Enquanto isso, construía uma carreira paralela, e igualmente notável, na área da saúde mental. Licenciado e doutorado em Medicina, especializou-se em psiquiatria. Tornou-se uma voz respeitada e por vezes controversa no campo, dirigindo o serviço de psiquiatria do Hospital Magalhães Lemos, no Porto, e ascendendo a professor catedrático na Universidade da mesma cidade. A sua ligação a Trás-os-Montes nunca se desvaneceu; pelo contrário, transformou-se numa bandeira. Foi um defensor tenaz, quase teimoso, da identidade duriense e dos interesses da região. E, num tempo em que a ecologia era um nicho, ele já tecia considerações pioneiras sobre a defesa do ambiente, insistindo para que a matéria ganhasse lugar na agenda política nacional.
Os reconhecimentos oficiais chegaram. Em 1988, o então Presidente da República, Mário Soares, seu companheiro de partido, agraciou-o com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade. Uma condecoração que, para quem conhecia a sua história, soava a justa reparação por tudo o que vivera nas masmorras do Aljube. A morte, agora, fecha o círculo. Mas no Parlamento, hoje, o seu nome foi pronunciado sem divisões, como um património coletivo de um país que ele ajudou, à sua maneira obstinada e intelectual, a libertar.
NR/HN/Lusa



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