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Num documento endereçado ao presidente do INEM, a que a Lusa teve acesso, o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP), António Nunes, expôs um mal-estar crescente nos quartéis. A informação que lhe chega indica que os Centros Operacionais de Doentes Urgentes (CODU) estão frequentemente a despachar meios “exclusivamente com base na distância”, uma diretiva interna que, na prática, está a desbaratar a organização territorial do socorro. “O critério de distância tem de ser enquadrado numa matriz de circulação rodoviária, obstrução temporária de vias, horas de ponta em ambiente urbano, etc”, pode ler-se na missiva, que tenta trazer o debate para a complexidade do asfalto.
O problema, insiste Nunes, não é teórico. Contactado para clarificar a posição, deu exemplos concretos que pintam um quadro de disrupção operacional. “Se for de manhã, para transportar um doente de Almeirim para Santarém, a distância mais curta é através da ponte de Almeirim. Mas se for pela ponte da A13, que são mais 10 a 15 quilómetros, chega lá mais depressa”, explicou, sublinhando que o mais próximo nem sempre se traduz no mais rápido. A crítica é direta: “O que nós dissemos ao INEM foi que não pode unilateralmente aplicar um critério que é determinado pelo Google e não pelas condições reais do terreno”.
A tensão reside na aparente sobreposição de dois modelos. A Liga recorda que os normativos em vigor consagram que o acionamento deve respeitar as áreas de atuação atribuídas a cada corporação, com exceções pontuais, e não um “mero critério único de distância”. Esta mudança, aplicada de forma sistemática, está a ter efeitos colaterais inesperados e por vezes contraproducentes. Nunes descreve uma situação recorrente: “Eu aciono uma ambulância de Tondela, no critério da proximidade. E ela não vai para o hospital mais próximo, vai para o hospital de referência [Coimbra]. Isso significa que Tondela fica todo o dia sem ambulância, pois ir de Tondela a Coimbra e voltar são pelo menos quatro horas. Para economizar 50 ou 30 segundos desguarneci um concelho”.
Para além da logística, há uma questão financeira sensível a agravar o entendimento. O presidente da LBP não esqueceu de a mencionar: o INEM “não paga 100% da equipa/ambulância”, sendo a diferença suportada por municípios ou associações de bombeiros. “Se o corpo de bombeiros só recebe 60% ou 70% das despesas, tem de ir à câmara municipal e aos sócios buscar o resto, os sócios depois não entendem, por exemplo, que o concelho fique sem ambulância”, afirmou. É um ponto que torna a gestão dos recursos localmente frágil e politicamente delicada.
Apesar do tom crítico, António Nunes reconheceu o esforço do presidente do INEM para melhorar os processos, considerando “meritória” a sua tentativa de encontrar respostas. No entanto, deixou claro que a boa intenção não dispensa a consulta e o estudo de impacto. “Quando nós lhe dissemos que sim, que o P1 [situação emergente] devia ter o critério da proximidade, não era o critério da distância. Isso é diferente”, precisou. O dilema, na sua visão, está na aplicação brusca de uma mudança com ramificações profundas. “O princípio pode estar bem. Agora, é preciso um conjunto de normativos técnicos, administrativos e de correlação que não foram estudados”, concluiu, sugerindo que a pressa pode estar a criar um novo tipo de congestão, desta vez na coordenação do próprio socorro.
NR/HN/Lusa



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