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A relação entre exercício e bem-estar é conhecida, mas os efeitos concretos dos hábitos desportivos mantidos ao longo das décadas sobre os sistemas fisiológicos de stress são uma matéria mais complexa. Investigadores das universidades de Oulu e do Instituto Diaconal de Oulu trouxeram agora dados concretos para esta equação. O trabalho, baseado na Coorte de Nascimentos do Norte da Finlândia de 1966, acompanhou participantes dos 31 aos 46 anos, cruzando os seus hábitos de atividade física de lazer com a medição da chamada carga alostática – um indicador composto que reflete o desgaste corporal acumulado devido à exposição prolongada ao stress.
Os resultados, publicados na revista Psychoneuroendocrinology, traçam um retrato claro. Os indivíduos que, durante o período de acompanhamento de 15 anos, não cumpriram de forma sustentada as recomendações da Organização Mundial de Saúde para atividade física apresentaram, aos 46 anos, uma carga alostática significativamente mais elevada comparativamente com os seus pares consistentemente ativos. A investigação nota ainda que um declínio no nível de exercício durante a idade adulta também se correlacionou com um agravamento deste marcador de stress fisiológico.
Curiosamente, o estudo aponta para um efeito protetor que não exige uma vida inteira de desporto intenso. “Os nossos dados sugerem que aumentar o nível de atividade física na idade adulta pode ser benéfico”, contextualiza Maija Korpisaari, investigadora de doutoramento e primeira autora do artigo. O grupo que se tornou mais ativo ao longo do tempo não mostrou diferenças significativas na carga de stress em relação ao grupo que sempre se manteve ativo. Esta nuance oferece uma perspetiva encorajadora: nunca é demasiado tarde para colher alguns dos benefícios.
A equipa foi meticulosa na análise, testando diferentes combinações de biomarcadores – como pressão arterial, colesterol HDL, triglicerídeos e proteína C-reativa – para calcular a carga alostática. As conclusões mantiveram-se robustas independentemente do modelo utilizado, reforçando a solidez das associações encontradas. “O que isto nos indica é que a importância da atividade física não se confina a uma fase da vida. A prática regular, sustentada ao longo dos anos, parece ajudar o organismo a gerir e a mitigar os efeitos fisiológicos do stress a longo prazo”, explica Korpisaari.
O estudo, de natureza observacional, não estabelece causalidade direta, mas abre caminhos importantes para a saúde pública. Os investigadores sublinham a necessidade de mais estudos longitudinais para desvendar os mecanismos precisos através dos quais o exercício influencia os sistemas de stress do corpo em diferentes idades. No entanto, a mensagem que emerge é clara e reforça orientações já existentes: manter ou adotar um estilo de vida ativo na idade adulta pode ser uma estratégia fundamental para conter o desgaste silencioso provocado pelo stress crónico.
Referência Bibliográfica:
Korpisaari, M., Kähönen, M., Hurme, J., Aalto, V., Hautasaari, P., Koivula, K., Kujala, U. M., & Wikgren, J. (2026). Association of longitudinal changes in physical activity with allostatic load in midlife. Psychoneuroendocrinology. https://www.oulu.fi/en/news/long-term-physical-inactivity-linked-higher-stress-burden-midlife
NR/HN/AlphaGalileo



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