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A realização de três cirurgias de coração aberto na Faixa de Gaza, esta semana, marcou o fim de uma paralisia de mais de dois anos neste tipo de procedimentos vitais, um directo reflexo da catástrofe humanitária que se abateu sobre o enclave. O anúncio foi feito pelo Ministério da Saúde local, que descreveu as intervenções como um marco nos esforços para reanimar serviços médicos especializados.
As operações foram conduzidas ao longo dos dois últimos dias por uma equipa conjunta. Do lado palestiniano, a equipa foi liderada pela cirurgiã cardiotorácica Dra. Sahar Abu Ghali. A sua equipa trabalhou em conjunto com uma missão médica voluntária da Fundação PalMed, organização não-governamental que presta auxílio na região, chefiada pelo Dr. Kifah Alwan. Segundo as autoridades de saúde gazetas, estas são as primeiras cirurgias cardíacas deste género desde o início da ofensiva militar israelita, desencadeada a 7 de outubro de 2023.
A interrupção prolongada, explicam, não foi uma decisão clínica mas uma imposição da realidade material extrema. A escassez crítica de medicamentos específicos e de material médico descartável esterilizado, itens essenciais para procedimentos de alta complexidade, tornou qualquer planeamento impossível. Para além da falta de stock, a infraestrutura física sofreu golpes severos. Os bombardeamentos danificaram gravemente ou destruíram as unidades especializadas do Complexo Médico Al-Shifa, em Gaza Cidade, e as do Hospital Europeu, na região de Khan Younis. Estes eram os dois principais centros de referência para esta especialidade no território.
Esta combinação de fatores – falta de inputs e destruição das instalações – deixou centenas de pacientes em lista de espera, num estado de vulnerabilidade agravado pela degradação generalizada de todo o sistema sanitário. Doentes que necessitavam de bypass coronário ou de substituição valvular viram os seus prognósticos deteriorarem-se sem perspetiva de tratamento adequado dentro de Gaza.
A retomada, ainda que modesta em número, foi por isso saudada pelas autoridades de saúde palestinianas como “um feito médico nacional”. Representa um ponto de luz num cenário de sombras, indicando uma frágil capacidade de reorganização interna, muitas vezes à margem dos fluxos oficiais de ajuda. O sucesso das operações dependeu da conjugação de saber local, que persistiu contra ventos e marés, com o conhecimento trazido pela delegação internacional e, presume-se, com o envio de material específico que esta conseguiu facultar.
O contexto geral, contudo, permanece profundamente sombrio. A guerra, que recomeçou após o colapso do cessar-fogo de outubro de 2025, continua a cobrar um preço humano avassalador. Dados do Ministério da Saúde de Gaza, considerados fiáveis pela ONU, indicam que mais de 466 pessoas foram mortas por ação militar israelita desde que o acordo de trégua terminou, elevando o número total de mortos no enclave para mais de 71.550 desde o início das hostilidades. Entre as vítimas contam-se mais de vinte mil crianças. Neste panorama, a história das três cirurgias bem-sucedidas é um episódio de resiliência clínica, mas também um lembrete brutal de tudo o que foi perdido e de quantos continuam à espera de um cuidado que o território já não consegue, na sua maioria, fornecer.
NR/HN/Lusa



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