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Uma equipa de cientistas espanhóis e israelitas conseguiu mapear, com um detalhe sem precedentes, os efeitos moleculares de um processo de regulação chave numa enzima intimamente ligada ao desenvolvimento do cancro. O estudo, que consumiu anos de trabalho meticuloso, foca-se na piruvato quinase, um componente não apenas fundamental para o metabolismo dos açúcares, mas também um conhecido acelerador da divisão celular quando a sua atividade sai dos eixos. O que a equipa conseguiu foi descrever até à exaustão como é que uma marca química chamada acetilação atua como um interruptor de afinação, alterando a dinâmica e o comportamento desta enzima.
A investigação, uma colaboração sólida e persistente entre o grupo da professora catedrática Irene Díaz Moreno, do Instituto de Investigaciones Químicas do centro misto US-CSIC na Isla de la Cartuja, e o laboratório do professor Eyal Arbely, da Universidade Ben-Gurion do Negev, em Israel, viu agora os seus resultados plasmados nas páginas da prestigiada revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). O cerne do artigo reside na demonstração inequívoca de que a acetilação em posições específicas da estrutura da piruvato quinase inibe a sua função e compromete a sua estabilidade. Em condições fisiológicas normais, este mecanismo de modificação reversível permite que a célula ajuste com precisão cirúrgica o fluxo metabólico, consoante as necessidades do momento. O problema surge em cenários patológicos, como os tumores, onde este sistema de controlo fino se desregula, permitindo que o metabolismo seja desviado para alimentar uma proliferação sem freio.
“Compreender os mecanismos moleculares que regulam com precisão o funcionamento da piruvato quinase aproxima-nos de deslindar as alterações metabólicas que conduzem a proliferação de células cancerosas”, afirmou Irene Díaz-Moreno, numa declaração que sublinha o carácter translacional do trabalho de ciência básica. A complexidade do sistema estudado é notória, pois a piruvato quinase existe em duas formas principais: a PKM1, comum em tecidos adultos diferenciados, e a PKM2, mais associada a tecidos embrionários e, de forma relevante, a vários tipos de cancro. Uma das descobertas mais interessantes do estudo é que o efeito da acetilação não é uniforme, variando consoante a variante da enzima e o local exato onde a marca química é colocada, o que revela uma camada adicional de regulação específica que até agora permanecia pouco clara.
Para chegar a estas conclusões, os investigadores não puseram de lado qualquer ferramenta disponível, recorrendo a uma conjugação robusta de técnicas bioquímicas, biofísicas e de simulação computacional. Esta abordagem multidisciplinar permitiu-lhes observar não apenas a estrutura estática, mas também os movimentos e as alterações conformacionais da enzima perante a acetilação. No fundo, o trabalho oferece um manual de instruções molecular mais completo sobre como este regulador crítico do metabolismo é modulado, fornecendo peças essenciais para interpretar o seu comportamento errático em contextos de doença. Apesar do caminho até uma eventual aplicação clínica ser longo e incerto, estes dados abrem portas para estratégias futuras que visem interferir com este mecanismo, possivelmente traçando novas vias para travar a desregulação metabólica que os tumores tantas vezes exploram em seu benefício.
A publicação do artigo na PNAS valida a relevância da descoberta para a comunidade científica internacional, que há muito reconhece a piruvato quinase como um alvo de grande interesse na oncologia. O estudo não esgota, contudo, o tema, deixando em aberto questões sobre a interação com outras modificações e o contexto celular mais amplo, campos que certamente alimentarão investigações futuras. Para já, fica a imagem mais nítida de um dos muitos interruptores que, quando avariados, podem contribuir para o caos celular do cancro.
Referência bibliográfica:
Discovery of key metabolic regulation mechanisms in cancer development. 23/01/2026 University of Seville. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). https://www.pnas.org/doi/10.1073/pnas.2527086122
NR/HN/AlphaGalileo



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