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A voz soava cansada, mas a mensagem era clara e urgente. Sinésia Sitão, chefe do programa de emergência da OMS em Moçambique, não tinha dúvidas: os próximos dias trarão um agravamento dramático da situação sanitária nas áreas devastadas pelas águas. “Espera-se que a situação de saúde dessas pessoas possa agravar-se como consequência destas inundações”, afirmou à ONU News, num apelo direto à comunidade internacional. O pedido é por meios concretos para combater doenças diarreicas, malária e infeções respiratórias agudas, males que encontram terreno fértil no caos pós-cheia.
O cenário que pinta é brutalmente simples. Aglomeram-se populações deslocadas, muitas vezes sem teto, a água potável é uma miragem e as condições de higiene simplesmente desfizeram-se. “Isto proporciona o surgimento de doenças ou agravamento de doenças já existentes”, sublinhou Sitão. A província de Gaza, a mais fustigada, concentra as maiores atenções, mas o problema alastra. A prioridade imediata, segundo a responsável, é desbloquear a logística para que medicamentos e equipas consigam chegar a quem precisa, garantindo a continuidade dos serviços de saúde. A OMS está no terreno desde a fase do plano de contingência, mas a escala do desastre exige mais.
Para além das enfermidades físicas, há uma sombra que cresce silenciosamente: a saúde mental. Sitão enfatizou que o apoio psicossocial é uma necessidade premente, não só para as vítimas, mas também para os profissionais de saúde, eles próprios afetados pela tragédia. “É uma prioridade”, insistiu. Do outro lado da linha, no Instituto Nacional de Gestão de Riscos e Desastres (INGD), o porta-voz Paulo Tomás traçava um quadro operacional desesperante. A contagem oficial, ainda provisória, aponta para 642.122 pessoas afetadas desde 7 de janeiro, com 12 vidas perdidas.
Mas os números, por si só, não captam a dimensão humana do drama. Tomás referiu a necessidade premente de resgatar cerca de 4.000 pessoas que permanecem sitiadas em distritos como Magude, Manhiça, Chókwé e Guijá. “Elas estão sem meios, sem formas ou sem condições de poderem confecionar alimentos, sem acesso a água potável”, descreveu, salientando que o país está a receber apoio de nações vizinhas e organizações para esta missão crítica. Enquanto isso, os dados do INGD, atualizados até ao final da tarde de ontem, contabilizam a destruição: 2.879 casas parcialmente destruídas, 757 totalmente arrasadas e outras 71.560 inundadas.
O sistema de saúde local já sente o golpe, com 242 unidades sanitárias afetadas pelas intempéries. Nos 91 centros de acolhimento que já albergam perto de 96 mil desalojados, o espectro dos surtos é uma ameaça constante. A corrida contra o tempo, agora, é para evitar que a calamidade natural se transforme numa crise epidemiológica de proporções ainda mais difíceis de controlar.
NR/HN/Lusa



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