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O Partido Socialista madeirense formalizou na Assembleia Legislativa um diploma que recomenda, com caráter de urgência, a suspensão do processo de alienação do Hospital Dr. Nélio Mendonça. A iniciativa parlamentar surge em reação direta à declaração do presidente do Governo Regional, Miguel Albuquerque, que horas antes confirmara a intenção de vender o imóvel histórico para financiar parcialmente a construção do novo Hospital Central e Universitário.
Paulo Cafôfo, líder do grupo parlamentar socialista, não poupou críticas à estratégia da coligação PSD/CDS-PP, num comunicado onde acusa o executivo de confundir governação com “atividade de natureza imobiliária”. A gestão da Região, sustentou, não pode assentar na alienação do património público. Para o PS, a medida configura uma opção “precipitada e lesiva do interesse público”, sobretudo num momento em que o sistema regional de saúde enfrenta constrangimentos estruturais graves, das listas de espera às faltas de medicamentos.
A posição de Albuquerque, no entanto, parece irreversível. À margem de um evento em Câmara de Lobos, o líder do Governo Regional foi perentório: “A utilidade é o que está já consignado, que é nós alienarmos todo aquele espaço”. A receita, insistiu, servirá para amortizar parte dos avultados custos da nova infraestrutura hospitalar, cuja conclusão está prevista para 2030. Uma visão que os socialistas consideram míope.
No entender do PS, o futuro Hospital Central, ainda que necessário, não resolverá por si só os problemas crónicos do setor. Até porque, alegam, o projeto prevê um número de camas inferior ao existente atualmente e falha na articulação entre cuidados hospitalares, continuados e sociais. A solução passaria, antes, por uma reorganização inteligente do parque hospitalar. O partido propõe que, após a entrada em funcionamento do novo hospital, as atuais unidades dos Marmeleiros e Dr. João de Almada sejam convertidas em estruturas residenciais para idosos. Já o Dr. Nélio Mendonça, inaugurado em 1973 e ocupando uma área generosa de 54 mil metros quadrados no coração do Funchal, manteria uma missão pública vital.
A reconversão imaginada pelos socialistas transformaria o emblemático edifício num hospital secundário, especializado em valências como reabilitação, cuidados continuados, medicina paliativa e apoio ao doente frágil. Uma ideia que, defendem, responderia de forma mais estruturante às necessidades de uma população envelhecida. O projeto de resolução entregue hoje pede, precisamente, que o governo suspenda imediatamente qualquer decisão sobre a venda, elabore um plano integrado de reorganização e avalie seriamente a manutenção da unidade com funções sociais ou de saúde.
O impasse, assim, está instalado. De um lado, um executivo regional que vê no valor patrimonial do imóvel uma oportunidade de aliviar o financiamento de uma obra faraónica. Do outro, uma oposição que enxerga no mesmo edifício um instrumento potencial de coesão social, cuja venda representa um esvaziamento perigoso da capacidade pública de resposta. O destino do Dr. Nélio Mendonça, seja qual for, há de deixar marcas duradouras no frágil sistema de saúde madeirense.
NR/HN/Lusa



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