Saúde oral em risco: a ameaça silenciosa ao desempenho dos atletas

24 de Janeiro 2026

Estudo revela que mais de 70% dos atletas profissionais sofrem de doença periodontal e taxas alarmantes de cáries, condições que minam a saúde geral, aumentam o risco de lesões e comprometem diretamente a performance desportiva

Uma investigação recente veio lançar uma luz preocupante sobre um aspeto frequentemente negligenciado na preparação de alta competição: a saúde oral dos atletas. Dados compilados por docentes da Universidade Europeia, publicados na revista ‘Sport Training’, pintam um quadro alarmante. Entre 15% a 89% dos desportistas avaliados em vários estudos apresentam cáries, enquanto a esmagadora maioria, mais de 70%, sofre de doença periodontal, uma inflamação crónica das gengivas que pode ter repercussões em todo o organismo.

Cristina López de la Torre, coautora do artigo e diretora do departamento de Medicina Dentária e Biomedicina da Universidade Europeia, não tem dúvidas sobre o impacto. “Estes problemas não só comprometem a saúde geral, como também aumentam o risco de lesões musculares e articulares, afetando diretamente o desempenho atlético”, afirmou. A explicação reside na sistemática. A inflamação persistente gerada por uma condição como a periodontite funciona como um foco de bactérias e mediadores inflamatórios que circulam no corpo. Este estado de alerta constante do sistema imunitário pode, na prática, abrir a porta a outras infeções e atrasar a recuperação dos músculos após esforços intensos, um fenómeno particularmente crítico durante períodos de competição apertada ou cargas de treino extremas.

Mas o que está na origem deste cenário? Os investigadores apontam para uma combinação perversa de hábitos quase inevitáveis no meio desportivo. O consumo regular e por vezes compulsivo de géis energéticos, bebidas desportivas e outros produtos ricos em açúcar serve de banquete para as bactérias causadoras de cáries. Para piorar, o exercício físico intenso provoca uma redução do fluxo salivar, e a boca seca perde a sua capacidade natural de limpeza e neutralização de ácidos. Junte-se a isto episódios de desidratação e, em muitos casos, uma rotina de higiene oral negligenciada devido a horários extenuantes ou deslocações constantes, e obtém-se a tempestade perfeita para problemas dentários.

López de la Torre insiste na mudança de mentalidade. “Os atletas devem estar cientes de que o cuidado oral é tão importante como qualquer outra parte da sua preparação física”, sublinhou, defendendo que “é essencial incorporar a saúde oral como parte integrante dos programas de treino desportivo”. O artigo não se fica pelo diagnóstico e avança com propostas concretas para travar o problema. Entre as medidas mais imediatas, recomenda-se bochechar com água imediatamente após a ingestão de hidratos de carbono para remover resíduos açucarados. Adverte-se também para não escovar os dentes logo após consumir bebidas ácidas, como muitas isotónicas, pois o esmalte fica temporariamente amolecido e a escovagem pode provocar erosão; o ideal é esperar cerca de trinta minutos.

A alimentação, claro, está no cerne da questão. Uma dieta equilibrada, com aporte adequado de proteínas e gorduras saudáveis, fortalece o organismo como um todo. E estratégias mais inovadoras, como a utilização de probióticos específicos, podem ajudar a reequilibrar a microbiota oral, criando um ambiente menos propício às bactérias patogénicas e reduzindo a inflamação de base. Trata-se, no fundo, de uma abordagem multifacetada.

Os investigadores concluem que integrar este capítulo na medicina desportiva já não é um luxo, mas uma necessidade premente. Considerar a saúde oral como mais um pilar dos cuidados ao atleta não é apenas uma questão de prevenir dor ou desconforto. É, nas palavras da equipa, uma forma de permitir que o desportista “atinja o seu potencial máximo, reduzindo o risco de doenças e otimizando o seu desempenho”, transformando um ponto fraco comum numa frente de ganho marginal decisiva.

NR/HN/Lusa

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

Bactéria hospitalar C. diff esconde-se no intestino e escapa a desinfetantes

Quase meio milhão de americanos são afetados anualmente por infeções por Clostridioides difficile, uma bactéria que provoca diarreia severa e inflamação do cólon potencialmente fatal. Investigadores da Tufts University desenvolveram duas abordagens complementares para perceber como o microrganismo coloniza o intestino, forma esporos resistentes e escapa aos tratamentos convencionais, abrindo caminho a terapias mais dirigidas

FMUP recebe conferência de consenso sobre Agenda Nacional de Inteligência Artificial

A Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) recebe, no dia 13 de março, às 14h30, no Auditório do Centro de Investigação Médica da FMUP (CIM-FMUP), a Conferência de Consenso sobre Agenda Nacional de Inteligência Artificial, iniciativa que reunirá especialistas de diferentes áreas para discutir os enquadramentos técnico, ético, jurídico e organizativo da aplicação da inteligência artificial na medicina e no sistema de saúde.

Marcelo destaca papel dos psicólogos ao condecorar ex-bastonário

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, condecorou o ex-Bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses, Francisco Miranda Rodrigues, com o grau de comendador da Ordem do Mérito, numa cerimónia realizada no Palácio de Belém, em Lisboa, na sexta-feira, 6 de março.

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights