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A transmissão silvestre do vírus Zika no Brasil, até agora associada predominantemente à linhagem asiática, revela uma nova e complexa faceta. Investigadores confirmaram a infeção de bugios-ruivos (Alouatta guariba) de vida livre no Sul do país por um Zika vírus (ZIKV) com notável semelhança genética à linhagem africana protótipo MR766. Esta descoberta, publicada na revista Zoonoses, levanta questões prementes sobre a introdução e circulação de variantes do vírus nos ecossistemas das Américas.
O trabalho, liderado por Paula Rodrigues de Almeida, Luiza Presser Ehlers e Meriane Demoliner, entre outros cientistas, partiu da necessidade premente de vigiar a presença de flavivírus em ambientes silvestres brasileiros. O Zika vírus mantém-se na natureza num ciclo que envolve primatas não humanos e mosquitos, e a sua emergência no Brasil em 2015 sublinhou os riscos imprevisíveis da sua dinâmica ecológica. A equipa focou-se no estado do Rio Grande do Sul, analisando primatas que apresentavam sinais clínicos ou que foram encontrados mortos.
Através da técnica de RT-PCR, os cientistas identificaram onze animais positivos para o ZIKV. O que surpreendeu a equipa foi o sequenciamento genético posterior. A estirpe detetada partilha 99.3% de identidade com o vírus MR766, isolado originalmente na África Oriental, e 98.7% com a estirpe ArD157995, da África Ocidental. Em contraste, a semelhança com a linhagem asiática P6-740, comum nos surtos humanos no continente americano, foi de apenas 89.7%. Um detalhe genómico peculiar reforça a ligação às estirpes africanas mais antigas: uma deleção de 216 nucleótidos na região que codifica a proteína NS3, uma característica que se perdeu nas linhagens que evoluíram posteriormente.
As tentativas de isolar o vírus em cultura celular resultaram em títulos virais bastante baixos, insuficientes para experiências mais aprofundadas, um dado que por si só intriga os virologistas. Por outro lado, o quadro histopatológico nos animais foi eloquente. Os bugios apresentavam lesões severas, incluindo microcefalia, fenda palatina (palatosquise) e calcificações no neuropilio, o emaranhado de fibras nervosas no cérebro. Infiltrados inflamatórios discretos foram observados em vários tecidos. Num caso particularmente significativo, a análise imuno-histoquímica confirmou a presença de antigénios virais numa placenta, sugerindo a possibilidade de transmissão vertical, um mecanismo terrivelmente familiar nos casos de Zika em humanos.
A descoberta repetida deste mesmo vírus de linhagem africana na mesma região ao longo de três anos consecutivos é talvez o dado mais alarmante. Isso não parece apontar para um evento isolado de introdução, mas sim para múltiplas entradas ou, de maneira mais preocupante, para a circulação sustentada e não detetada desta variante em nichos ecológicos específicos. A questão que fica no ar, e que os próprios autores colocam implicitamente, é como é que esta linhagem, distinta daquela que causou a epidemia urbana, se estabeleceu a milhares de quilómetros do seu provável berço original.
O bugio-ruivo, um primata emblemático das florestas do Sul e Sudeste do Brasil, assume agora um papel inesperado como sentinela para uma nova face da ameaça do Zika. A deteção deste agente patogénico em animais silvestres, longe dos cenários urbanos que dominaram as manchetes, força uma reavaliação dos ciclos de transmissão e dos riscos de emergência viral. O estudo, de acesso aberto, está disponível na íntegra na plataforma ScienceOpen, oferecendo todos os detalhes técnicos para a comunidade científica mundial.
Referência Bibliográfica:
Paula Rodrigues de Almeida, Luiza Presser Ehlers and Meriane Demoliner et al. An African Lineage Zika Virus Infecting Free-Living Neotropical Primates in Southern Brazil. Zoonoses. 2026. Vol. 6(1). DOI: 10.15212/ZOONOSES-2025-0041
NR/HN/AlphaGalileo



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