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O Governo abriu a porta para que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) possa voltar a contar com o saber de experientes mãos em 2026, autorizando a contratação de até 1.111 médicos aposentados. O número, publicado esta segunda-feira em Diário da República, representa um acréscimo de 41 vagas relativamente ao limite definido para o ano de 2025 e abrange tanto novas entradas como a renovação dos vínculos já existentes que se mantenham ativos no final do próximo dezembro. A decisão, que entra em vigor já na terça-feira mas produz efeitos a partir do primeiro dia do próximo ano, resulta de uma proposta técnica da Direção Executiva do SNS e surge no seguimento de um prolongamento do regime jurídico que permite estas reintegrações, agora estendido até ao final de 2027.
No despacho, assinado pela ministra da Saúde, Ana Paula Martins, o executivo não esconde a natureza paliativa da medida, encarando-a como uma solução de recurso perante um problema que teima em perdurar. Apesar de apontar políticas de atração de novos profissionais e o alargamento da capacidade formativa das faculdades, o texto oficial reconhece, com uma franqueza algo rara, que os tais “constrangimentos estruturais” teimam em não ceder. A raiz do mal está, segundo se lê, na “configuração da demografia médica”, marcada por um fluxo de aposentações que não parece dar tréguas. E o impacto dessa realidade sente-se com um peso particularmente gravoso na medicina geral e familiar, aquela que o próprio documento descreve como “pilar fundamental” de todo o sistema.
É precisamente nessa frente, a dos cuidados de saúde primários, que as consequências mais imediatas se fazem sentir. A falta de médicos, alerta o Governo, não é apenas um número num relatório; traduz-se numa “capacidade de resposta” diminuída, com o risco sério de acentuar assimetrias entre regiões e de comprometer o acesso das pessoas a consultas e tratamentos no tempo devido. Perante este quadro, a administração central argumenta que lhe “impõe-se” agir, procurando “soluções excecionais, responsáveis e socialmente justas” para travar uma degradação maior dos serviços. Foi nesse espírito que assumiu no seu programa o compromisso de tentar mobilizar a “experiência acumulada” dos que já se reformaram, mas que ainda têm vontade de trabalhar.
O mecanismo legal que o permite remonta a 2010, e o seu prolongamento era aguardado com expectativa por muitas administrações hospitalares e unidades de saúde familiar, que dependem destas contratações para assegurar o funcionamento de várias consultas e serviços. O contingente agora aprovado, fruto de uma negociação interna que considerou as necessidades reportadas por todo o país, pretende assim ser uma tábua de salvação. Mas é, no fundo, a confissão clara de que o sistema continua doente e que a sua cura, que passa por reter os jovens médicos e atrair outros, ainda está longe de ser alcançada. O SNS, por enquanto, segue dependente do know-how de quem já devia estar a usufruir de uma reforma tranquila.
NR/HN/Lusa



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