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A sua Lição, intitulada “A Construção do Conhecimento acerca das Causas Modificáveis do Cancro do Estômago”, focou-se na análise das causas e evolução epidemiológica deste tipo de cancro, destacando a importância da infeção por Helicobacter pylori e outros fatores de risco modificáveis.
Durante a apresentação, Nuno Lunet organizou o seu discurso em três partes principais: o declínio da mortalidade por cancro do estômago, o enquadramento do estudo das suas causas pela cascata de lesões proposta por Pelayo Correa, e a descoberta da infeção por Helicobacter pylori, que lhe valeu o Prémio Nobel, evidenciando o papel central desta bactéria na causalidade da doença. O professor associou o declínio observado na mortalidade, tanto em Portugal como internacionalmente, a um “triunfo não planeado” resultante da melhoria das condições de vida, embora tenha alertado para uma possível estabilização ou mesmo aumento das taxas, devido ao envelhecimento populacional e à mudança no perfil dos subtipos de cancro do estômago.
Nuno Lunet destacou que, apesar do cancro do estômago estar a tornar-se uma doença mais rara, com incidência estimada em 6 novos casos por 100.000 pessoas, o investimento em investigação nesta área tem sido inferior ao de outros cancros com menor letalidade, como o cancro da mama. Sublinhou a necessidade de continuar a monitorizar a doença com informação cada vez mais detalhada e de desenvolver estudos colaborativos internacionais, como o Stomach cancer Pooling Project (STOP Project), que envolve 16 países e milhares de casos, para obter estimativas mais precisas sobre a relação entre fatores de risco (como alimentação, consumo de sal e tabaco) e os diferentes subtipos de cancro do estômago.
Relativamente à infeção por Helicobacter pylori, Nuno Lunet sublinhou que esta é considerada uma causa central, embora não suficiente nem necessária para o desenvolvimento do cancro do estômago, representando cerca de 90% dos casos. Persistem dúvidas sobre a variabilidade geográfica da prevalência da infeção, designada inicialmente como “enigma africano” e depois “enigma asiático”, que poderá estar relacionada com fatores demográficos, acesso aos cuidados de saúde, tabagismo, exposições ambientais e componentes genéticos.
De acordo com os dados apresentados, o cancro do estômago continua a ser responsável por quase um milhão de novos casos e mais de 650 mil óbitos anuais a nível mundial, sendo o quinto mais frequente. Em Portugal, estima-se que existam mais de 3.500 novos casos e cerca de 2.500 óbitos por ano, posicionando-se como a quinta neoplasia mais frequente e a terceira com maior mortalidade.
Nuno Lunet mostrou-se otimista quanto ao futuro do ensino e investigação nesta área, reconhecendo os desafios que persistem. Defendeu a importância de identificar questões relevantes no contexto nacional, abordá-las com metodologias robustas e em articulação com os principais intervenientes, além de diversificar as fontes de financiamento e garantir estabilidade nas equipas de trabalho. No ensino, destacou a necessidade de acompanhar a evolução das formas de aprender e ensinar, adaptando metodologias às necessidades atuais e diferenciando-se de percursos não institucionais.
O percurso académico de Nuno Lunet começou em Viseu, onde nasceu em 1973. É licenciado em Ciências Farmacêuticas desde 1997, mestre em Saúde Pública desde 2000 e doutorado em Saúde Pública desde 2005. É professor na FMUP desde 2006 e investigador integrado do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, com um foco especial na epidemiologia do cancro e em técnicas de revisão sistemática e meta-análise.
Fonte: FMUP
FMUP/HN/AL



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