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A União Internacional para o Controlo do Cancro (UICC) está a canalizar a força das narrativas individuais para redefinir os padrões do atendimento oncológico em todo o mundo. No âmbito da campanha “Unidos pelo Único”, que antecede o Dia Mundial do Cancro (4 de fevereiro), a organização convoca pessoas afectadas pela doença, cuidadores, profissionais de saúde e entidades a partilharem as suas trajectórias, com o objectivo declarado de influenciar decisões políticas e práticas institucionais. A meta é clara: que o tratamento não se confine à mera resposta médica, mas incorpora uma sensibilidade holística às circunstâncias de vida, valores e contextos sociais de cada indivíduo.
“As experiências das pessoas afectadas pelo cancro oferecem uma visão do lado humano dos cuidados. Representam uma fonte inestimável e essencial de conhecimento que deve informar as políticas e os serviços oncológicos”, afirma Cary Adams, CEO da UICC. Esta perspectiva encontra eco na presidente da organização, Ulrika Årehed Kågström, que sublinha: “Os cuidados centrados nas pessoas não são teóricos. Já estão a ser praticados em muitas partes do mundo, com benefícios reais para a vida das pessoas. Estes exemplos devem tornar-se a norma, e não a exceção”.
A campanha, no seu segundo ano, deslocou o foco da simples consciencialização para a acção local e reflexão concreta. No site da iniciativa, acumulam-se mais de 600 relatos que funcionam como um espelho tanto das falhas sistémicas – como barreiras financeiras, isolamento geográfico ou carência de apoio psicossocial – quanto dos pilares de um atendimento verdadeiramente centrado na pessoa. A história de Shahzeb, uma criança de três anos no Paquistão, ilustra como a falta de suporte para custos indirectos, como habitação e transporte, pode ter um desfecho trágico. Em resposta a realidades similares, as Cancer Warriors Philippines mobilizaram-se e lograram a aprovação de uma lei que concede apoio financeiro abrangente a famílias de crianças com cancro.
Noutro cenário, na Malásia rural, o relato de Karen sobre um doente que abandonou o tratamento devido à distância do hospital expõe o desafio do acesso em regiões isoladas. Na África do Sul, a organização CANSA enfrentou esse problema através de um projecto de orientação personalizada para homens com cancro da próstata, assegurando acompanhamento desde a prevenção até aos cuidados paliativos. Já no Brasil, o caso de uma jovem mãe com cancro avançado na língua mostra a importância de uma abordagem multidisciplinar. A terapeuta da fala Camila não se limitou à terapia; criou exercícios personalizados, introduziu métodos alternativos de comunicação e trabalhou a reintrodução alimentar, num esforço para preservar a identidade e os laços familiares da doente.
O envolvimento de sobreviventes e familiares na advocacia por mudanças também se destaca. Após um diagnóstico de cancro da mama metastático, Barbara Nassar e o marido percorreram o Líbano para alertar sobre a falta de suporte a adultos com a doença. A associação que fundaram tornou-se uma voz nacional, redistribuindo medicamentos, influenciando políticas públicas e ajudando a criar o primeiro centro de cuidados de apoio do país, com serviços psicológicos e nutricionais gratuitos.
Estas narrativas concretizam os princípios dos cuidados centrados nas pessoas – um modelo que, segundo a OMS, coloca indivíduos, famílias e comunidades no cerne dos sistemas de saúde. Trata-se de uma abordagem que vai além dos “cuidados centrados no doente”, ampliando o olhar para incluir o contexto social, as necessidades emocionais e espirituais, e o papel activo da comunidade. A implementação, contudo, esbarra em obstáculos como a fragmentação dos serviços, recursos limitados e barreiras culturais. A própria UICC reconhece que tornar esta visão uma realidade exige vontade política e investimento em coordenação, formação profissional e parcerias comunitárias.
Num planeta onde cerca de uma em cada cinco pessoas desenvolverá cancro ao longo da vida, e perante os cerca de 20 milhões de novos casos anuais, a campanha #UnitedbyUnique da UICC sustenta que cada trajectória é singular, mas que todas convergem num desejo comum: ver o atendimento oncológico a tornar-se não apenas mais eficaz, mas profundamente mais humano e equitativo.
Referência bibliográfica
UICC. (2026, 27 de janeiro). Como histórias pessoais de todo o mundo podem transformar o futuro do atendimento oncológico [Comunicado de imprensa]. Recuperado de https://www.uicc.org/; OMS. (s.d.). O que é o cuidado centrado nas pessoas e como ele se aplica ao cancro? Recuperado de documento anexo.
NR/HN/AlphaGalileo



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