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Durante a segunda Conferência Internacional sobre o Combate ao Antissemitismo, realizada esta terça-feira em Jerusalém, o reverendo evangélico norte-americano Johnny Moore não poupou palavras. O antigo conselheiro de campanha do Presidente Donald Trump acusou formalmente as Nações Unidas de se terem transformado naquilo que considerou ser “a maior organização antissemita do mundo”.
Moore, cuja atuação pública ganhou notoriedade ao liderar a polémica Fundação Humanitária de Gaza (GHF) – entidade autorizada por Israel para distribuir ajuda no território em maio de 2025, substituindo parcialmente o mecanismo da ONU –, partilhou experiências do ano anterior. Disse ter contactado de perto com um fenómeno a que chamou “antissemitismo de colarinho branco” no seio da organização internacional. “É institucional”, afirmou, com uma convicção que ecoou no auditório. “É cuidadosamente formulado, escondido na burocracia e nos procedimentos. As Nações Unidas dedicam-se, na prática, a encobrir mentiras”, acrescentou, sem apresentar provas documentais específicas para estas alegações.
A intervenção do religioso de 42 anos surge num contexto de tensão profunda entre o governo israelita e as agências da ONU, que Telavive tem acusado repetidamente de serem coniventes ou mesmo aliadas do Hamas, o grupo que governa o enclave palestiniano. A autorização concedida à GHF de Moore, no ano passado, materializou essa desconfiança, pondo fim a um longo capítulo de coordenação logística.
A operação da fundação, contudo, ficou marcada por episódios trágicos. Nos meses que se seguiram, até ao cessar-fogo de outubro de 2025, centenas de civis foram mortos ou feridos em tumultos e incidentes à volta dos apenas quatro pontos de distribuição estabelecidos pela GHF, uma cobertura logística muito mais reduzida do que os cerca de 200 centros que a ONU gerenciava anteriormente. Moore não fez qualquer referência a estes eventos no seu discurso de hoje, focando-se inteiramente na crítica ao que descreveu como uma cultura organizacional preconceituosa.
As acusações de antissemitismo, um termo de contornos graves e historicamente carregado, lançadas por uma figura com ligações tão próximas aos círculos do anterior Presidente norte-americano, aguardam ainda uma resposta formal da sede das Nações Unidas. A organização não se pronunciou sobre as declarações do reverendo, que já regressou aos Estados Unidos após a conferência. A narrativa de Moore, mesclando retórica religiosa, política externa e uma crítica cáustica à burocracia internacional, ilustra mais um capítulo no fosso que separa, atualmente, certos setores da política israelita e norte-americana do establishment multilateral.
NR/HN/Lusa



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