Bactérias que “acendem” alertam para vinho a estragar antes de ser tarde

27 de Janeiro 2026

Investigadores da Universidade Hebraica criaram um sensor biológico que emite luz ao detetar ácido acético no vinho, permitindo uma monitorização em tempo real da deterioração durante a fermentação ou armazenamento

Um pequeno dispositivo que brilha no escuro pode vir a ser a salvação para muitos produtores de vinho, antecipando problemas que hoje só são detetados quando o prejuízo no lote já é inevitável. A inovação, que soa a ficção científica, é um biosensor vivo desenvolvido na Universidade Hebraica de Jerusalém. No seu cerne estão bactérias geneticamente modificadas que reagem à presença de ácido acético – o componente principal do vinagre e o grande responsável pelo aroma azedo que marca um vinho estragado.

A equipa, liderada pela estudante de doutoramento Yulia Melnik-Kesler sob a orientação da professora Yael Helman e em colaboração com o professor Oded Shoseyov, partiu de um problema antigo. A acumulação de ácido acético durante a fermentação pode arruinar completamente um vinho, mas os métodos atuais para o medir, como a cromatografia, exigem equipamento de laboratório caro, levam tempo e obrigam à recolha de amostras físicas. É um processo que não permite agir a tempo.

A solução encontrada foi engenhosa. Os investigadores aproveitaram um regulador bacteriano natural, conhecido como YwbIR e originalmente encontrado na bactéria Bacillus subtilis. Quando integrado no biosensor e na presença de ácido acético, este regulador ativa um gene que produz luz. O resultado é tão simples quanto eficaz: quanto mais ácido acético estiver no ambiente, mais intensamente o sensor brilha. E funciona num intervalo crítico, entre 0 e 1 grama por litro, emitindo um sinal cinco a oito vezes mais forte precisamente quando os níveis se aproximam do limiar de deterioração, por volta dos 0,7 gramas por litro.

Um dos aspetos mais práticos, e que tira peso aos ombros dos enólogos, é que o sensor não precisa de tocar no líquido. Consegue detetar o ácido acético volátil no espaço de ar acima do vinho, seja num garrafão de fermentação ou numa garrafa já fechada. Em testes com vinhos tintos e brancos comerciais, o dispositivo distinguiu sem falhas vinhos normais de vinhos propositadamente contaminados, dando um sinal luminoso claro no espaço de duas horas. E, contrariando a sensibilidade de muitos aparelhos eletrónicos, este biosensor biológico manteve a precisão mesmo em ambientes com 14,5% de álcool, uma característica vital para a aplicação na indústria vitivinícola.

“Este sistema permite-nos detetar ácido acético em tempo real, sem equipamento complicado ou processamento de amostras”, explicou a professora Yael Helman. A simplicidade abre portas a uma monitorização de baixo custo e feita no local de produção. Mas a visão da equipa vai além das adegas. O ácido acético é um indicador-chave em muitas indústrias baseadas em fermentação, desde a produção de alimentos aos biocombustíveis. E, num futuro que já se vislumbra, versões adaptadas deste sensor poderiam ser usadas em diagnósticos médicos não invasivos, como a análise do hálito, uma vez que o ácido acético começa a ser identificado como biomarcador de certas doenças.

Para já, o foco está no vinho, numa tentativa de trazer para as caves uma tecnologia que pode evitar perdas económicas significativas. O caminho desde o laboratório até à adega ainda terá de ser percorrido, mas o princípio está demonstrado: por vezes, a melhor maneira de proteger um produto milenar é usar um aliado vivo que ilumina o problema, literalmente, antes que ele se torne evidente para o paladar.

Referência bibliográfica:
Melnik-Kesler, Y., Shoseyov, O., & Helman, Y. (2026). A living biosensor for real-time detection of acetic acid volatilized from wine. Microbial Biotechnology. Disponível em: https://enviromicro-journals.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/1751-7915.70267

NR/HN/AlphaGalileo

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights