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As novas diretrizes para a gestão precoce do doente com acidente vascular cerebral (AVC) isquémico agudo, publicadas esta segunda-feira na revista Stroke, trazem mudanças que podem alterar significativamente a prática clínica. A ampliação do prazo para intervenções mecânicas de remoção de coágulos e a validação do fármaco tenecteplase estão entre as principais novidades para os adultos. Talvez de forma ainda mais marcante, o documento histórico inclui as primeiras recomendações detalhadas para o AVC pediátrico, um território até agora com escassa orientação padronizada.
“Esta atualização transporta os avanços mais importantes da última década diretamente para a prática”, afirmou Shyam Prabhakaran, professor e presidente do departamento de neurologia da Universidade de Chicago Medicine, que liderou o grupo de redação das diretrizes. A nota dominante é a expansão do acesso. A trombectomia mecânica, procedimento que retira o coágulo diretamente da artéria cerebral, viu a sua janela de intervenção alargada para até 24 horas após o início dos sintomas em doentes selecionados, mesmo naqueles com alguma área de tecido cerebral já comprometida. A evidência recente também suporta agora o uso desta técnica para obstruções na parte posterior do cérebro.
No campo farmacológico, a diretriz endossa o uso de tenecteplase como alternativa à alteplase nas primeiras 4,5 horas. A sua administração em dose única, mais rápida, simplifica o processo e pode ganhar minutos preciosos. Para quem acorda com sintomas ou chega tardiamente ao hospital, a administração destes trombolíticos pode ainda ser considerada até às 24 horas, desde que imagens avançadas mostrem tecido cerebral potencialmente recuperável.
A parte verdadeiramente inédita do documento dedica-se às crianças. O AVC pediátrico é raro, mas a sua identificação é crítica e complexa. Para além dos sinais conhecidos pelo acrónimo F.A.S.T. (Face, Braço, Fala, Tempo), as crianças podem manifestar-se com cefaleias súbitas e severas, vómitos, sonolência ou novas crises epilépticas. O problema, segundo as novas recomendações, é que as escalas de rastreio atuais foram desenhadas para adultos e falham frequentemente. A orientação é clara: perante a suspeita, deve realizar-se rapidamente uma ressonância magnética para confirmar o diagnóstico e excluir condições que mimetizam um AVC, como enxaquecas complexas ou tumores.
Em termos de tratamento para crianças, a diretriz indica que o fármaco alteplase pode ser considerado, dentro da janela das 4,5 horas, para crianças a partir dos 28 dias de vida até aos 18 anos. Já a trombectomia mecânica, realizada por especialistas experientes, é apresentada como uma opção eficaz para oclusões de grandes vasos em crianças a partir dos 6 anos, dentro das 6 horas, podendo ser razoável até às 24 horas.
O documento reforça ainda a necessidade crítica de sistemas regionais de cuidado integrado, que liguem os serviços de emergência médica (112), os hospitais primários e os centros especializados de forma célere. As unidades móveis de AVC, ambulâncias equipadas com tomógrafos, são destacadas como um modelo que acelera dramaticamente o diagnóstico e o início da terapêutica. A diretriz aconselha que, em regiões com acesso, os doentes com suspeita de oclusão de grande vaso sejam transportados diretamente para um centro capaz de realizar trombectomia, evitando transferências secundárias que custam minutos preciosos. “Tempo é cérebro”, sublinhou Prabhakaran. “Esta nova diretriz torna esse conceito real, mostrando como os sistemas, desde os socorristas até aos hospitais, podem trabalhar em conjunto para melhorar os resultados.”
A diretriz de 2026, que substitui a edição de 2018 e a sua atualização de 2019, conta com o endosso de várias sociedades científicas de referência, incluindo a Sociedade de Neurocirurgia Intervencionista e a Sociedade de Neurologia Vascular e Intervencionista. Será um dos temas em destaque na Conferência Internacional sobre AVC de 2026, que decorrerá em Nova Orleães no início de fevereiro.
Referência Bibliográfica:
American Heart Association Newsroom. New guideline expands stroke treatment for adults, offers first pediatric stroke guidance. 26 de janeiro de 2026. Disponível em: https://newsroom.heart.org/news/new-guideline-expands-stroke-treatment-for-adults-offers-first-pediatric-stroke-guidance?preview=45b96c7adbb7dc74778d6ea22c55663b
NR/HN/ALphaGalileo



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