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A divisão clássica entre os dois principais tipos de memória de longa duração – a episódica, que arquiva as nossas experiências pessoais, e a semântica, responsável pelos factos e conhecimentos gerais – pode ser menos nítida do que a ciência assumiu durante anos. Um estudo publicado esta semana na revista Nature Human Behaviour descobriu que o cérebro recorre essencialmente às mesmas áreas neurais para recuperar ambos os tipos de informação, um resultado que apanhou os próprios investigadores de surpresa e promete reorientar futuras linhas de investigação.
A equipa, liderada pela professora Roni Tibon, da Escola de Psicologia da Universidade de Nottingham, em colaboração com a Unidade de Cognição e Ciências Cerebrais da Universidade de Cambridge, desenhou uma experiência para testar as duas memórias em condições diretamente comparáveis. Recorreram a 40 participantes, aos quais foi pedido que estabelecessem associações entre logótipos e nomes de marcas. Numa tarefa, essas ligações correspondiam a conhecimento prévio do mundo real (memória semântica). Noutra, os pares tinham sido aprendidos especificamente numa fase de estudo controlada no laboratório (memória episódica).
Enquanto os voluntários realizavam os testes de recordação, a sua atividade cerebral era monitorizada através de ressonância magnética funcional (fMRI), uma técnica não invasiva que mapeia as regiões ativas do cérebro ao detetar variações no fluxo sanguíneo. A expectativa, alicerçada numa longa tradição de estudos, era a de que os padrões de ativação cerebral fossem distintos consoante o tipo de memória solicitado.
Os dados, contudo, contaram uma história diferente. “Ficámos muito surpreendidos com os resultados”, admitiu Roni Tibon. “Uma tradição de investigação bem estabelecida sugeria que veríamos diferenças claras na atividade cerebral entre a recuperação episódica e a semântica. Mas o que observámos foi uma sobreposição considerável nas regiões cerebrais envolvidas. Qualquer diferença que eventualmente exista é muito subtil.”
Este achado questiona a base de muitos estudos anteriores, que tendiam a explorar os dois sistemas de forma isolada. A consequência prática, nota a investigadora, foi uma carência de desenhos experimentais que avaliem ambas as memórias em paralelo, dentro do mesmo estudo. A nova perspetiva tem implicações que vão além da neurociência fundamental. “Estes resultados podem ajudar-nos a compreender melhor doenças como a demência e a Alzheimer”, avançou Tibon. “Se começamos a ver que todo o cérebro está envolvido nos diferentes tipos de memória, as intervenções futuras poderão ser desenvolvidas com base nesta visão mais integrada.”
O caminho que se abre agora, sugerem os autores, é o de uma investigação que não trate a memória episódica e a semântica como entidades completamente separadas, mas antes como componentes de um sistema interdependente e cooperativo. O estudo, ao juntar dados comportamentais e de neuroimagem de forma tão directa, pode assim marcar uma viragem na forma como a memória é entendida e estudada. “Penso que estes resultados devem mudar a direção da investigação nesta área”, concluiu Tibon, antevendo que poderão despertar um novo interesse em analisar como os dois lados da memória trabalham em conjunto.
Referência Bibliográfica:
Tibon, R. et al. Neural overlap in successful episodic and semantic retrieval. Nat Hum Behav (2026). https://doi.org/10.1038/s41562-026-01945-1
NR/HN/AlphaGalileo



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