Pele revela segredos de doença rara: estrutura de proteínas tóxicas determinada em biópsia de paciente vivo

27 de Janeiro 2026

Investigadores das universidades de Genebra e da Suíça Italiana descodificaram, pela primeira vez num doente vivo, a estrutura tridimensional dos filamentos de proteína que causam a amiloidose por transtirretina, usando uma simples biópsia de pele. O método minimamente invasivo promete revolucionar o diagnóstico e o acompanhamento desta e de outras doenças neurodegenerativas

A narrativa clássica do estudo de doenças neurodegenerativas é, muitas vezes, uma história póstuma. Os cientistas analisavam tecidos cerebrais ou cardíacos obtidos após a morte, perscrutando os estragos finais de uma batalha já perdida. Essa limitação começa agora a desfazer-se, graças a um trabalho desenvolvido em conjunto pela Universidade de Genebra (UNIGE) e a Università della Svizzera Italiana (USI). A equipa conseguiu um feito inédito: determinar a arquitetura molecular precisa dos depósitos proteicos tóxicos responsáveis pela amiloidose por transtirretina (ATTR) a partir de uma amostra de pele de um doente vivo. O estudo, que acaba de ser publicado na revista Nature Communications, rasga um novo caminho para diagnósticos mais precoces e menos agressivos, com um potencial de aplicação que se estende a patologias como Alzheimer ou Parkinson.

A ATTR é uma doença rara, genética ou adquirida, progressiva e de elevada agressividade. O seu mecanismo é, de certa forma, uma tragédia molecular. A proteína transtirretina, por razões hereditárias ou relacionadas com o envelhecimento, dobra-se de forma errada. Em vez de desempenhar a sua função, agrega-se em filamentos rígidos e insolúveis – os depósitos amiloides – que se vão acumulando como lixo tóxico no coração, nos nervos, nos rins e nos olhos. A disfunção progressiva destes órgãos é a consequência direta. Este processo de dobragem proteica descontrolada e acumulação é, não por acaso, um tema familiar noutras doenças neurológicas mais comuns, o que confere à descoberta uma relevância que ultrapassa em muito a da própria ATTR.

Andreas Boland, professor do Departamento de Biologia Molecular e Celular da Faculdade de Ciências da UNIGE, e Giorgia Melli, professora na USI, lideraram as equipas que desafiaram o paradigma estabelecido. Em vez de depender de amostras de órgãos vitais, difíceis ou impossíveis de obter em vida, focaram-se na pele. Realizaram uma biópsia cutânea, um procedimento rápido e quase indolor, num doente com ATTR. A partir dessa pequena porção de tecido, isolaram os filamentos amiloides. A quantidade era ínfima, mas suficiente. Utilizando a criomicroscopia eletrónica, uma técnica de vanguarda que congela as proteínas num estado quase nativo para as observar com resolução próxima do átomo, conseguiram finalmente desvendar a sua estrutura tridimensional. A descoberta crucial foi que os filamentos extraídos da pele tinham uma dobra praticamente idêntica à encontrada nos tecidos cardíacos ou nervosos afetados. A pele, um órgão periférico e acessível, revelou-se assim um espelho fiel do que acontece no interior profundo do corpo.

“O carácter minimamente invasivo da biópsia de pele abre novas vias para estudar a doença diretamente nos doentes”, explica Xuefeng Zhang, investigador pós-doutorado no mesmo departamento da UNIGE e coautor principal do trabalho. Esta é talvez a implicação mais profunda. Pela primeira vez, será possível observar como é que estes filamentos mortais evoluem ao longo do tempo, como mudam em diferentes fases clínicas ou, e isto é fundamental, como respondem a tratamentos experimentais. Transforma-se por completo a capacidade de avaliar terapêuticas, passando de uma avaliação indireta de sintomas para uma observação direta da alteração da própria estrutura da doença.

Entusiasmados com os resultados, os investigadores já perspetivam alargar o alcance da metodologia. O laboratório planeia agora aplicar esta mesma abordagem a outras doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson, igualmente caracterizadas pela acumulação de proteínas mal dobradas. “Poder estudar a estrutura dos depósitos diretamente em doentes vivos altera profundamente a nossa capacidade de compreender estas doenças e avaliar o efeito dos tratamentos”, conclui Andreas Boland. O que era um retrato estático do fim da linha transforma-se num filme dinâmico da progressão da patologia. Alarga-se exponencialmente o número de estudos estruturais, antes confinados a amostras post-mortem, e aproxima-se a perspetiva de uma medicina verdadeiramente personalizada, onde a terapia poderá ser ajustada com base na assinatura molecular específica dos depósitos de cada pessoa. A pele, esse limite entre o interior e o exterior, mostrou-se uma janela inesperada para os mistérios do corpo.

https://www.unige.ch/medias/en/2026/skin-biopsy-detect-rare-neurodegenerative-disease
Nature Communications, DOI: 10.1038/s41467-025-67457-2

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