![]()
A reabertura completa da passagem de Rafah, o único acesso da Faixa de Gaza não controlado diretamente por Israel, continua envolta em incerteza quanto à data efetiva, apesar dos preparativos logísticos e de segurança que decorrem a um ritmo visível no terreno. Fontes da área de segurança egípcia, que falaram sob anonimato, confirmaram que os trabalhos se concentram agora no lado palestiniano do complexo, onde se procede à reparação de acessos e à organização de listas nominativas. O objetivo declarado é permitir, numa primeira fase, a circulação diária de entre 100 a 150 pessoas em ambos os sentidos, um fluxo considerado modesto face às necessidades humanitárias do enclave.
A operação, encarada como pedra angular do plano de reconstrução para a região impulsionado pela administração norte-americana, esbarra em pormenores técnicos e em delicados equilíbrios políticos. O mecanismo acordado prevê que Israel receba, diariamente, as listas completas de quem entra e sai do Egito, para avaliação pelo seu serviço de informações interno, o Shin Bet. Esta condição foi alvo de veemente crítica por parte do movimento Hamas, que a classificou como uma forma de conceder a Telavive um “controlo indireto” sobre a fronteira.
No terreno, avista-se atividade. Um novo posto de controlo está a ser instalado fora do perímetro principal do terminal, onde efetivos de segurança egípcios farão a triagem inicial. Curiosamente, e segundo as mesmas fontes, não está prevista uma presença física direta do exército israelita nestas verificações, embora se admita que observadores israelitas possam monitorizar a operação a partir de uma distância considerada segura. Paralelamente, decorrem conversações – descritas como “complexas” – para a formação de uma força policial palestiniana que assuma funções no local, substituindo a atual estrutura policial ligada ao Hamas.
A entrada iminente de Ali Shaaz, presidente do comité tecnocrata palestiniano, para assumir as rédeas administrativas em Gaza, é vista por alguns analistas como um sinal de que se pretende criar faits accomplis no terreno. Enquanto isso, organizações humanitárias mantêm-se em alerta. Uma fonte do Crescente Vermelho Palestiniano em Rafah adiantou que as estruturas de saúde do lado egípcio estão prontas para receber feridos, mas que a coordenação logística com a nova administração da passagem, em funções desde segunda-feira, ainda não começou de forma efectiva.
O impasse sobre a reabertura arrasta-se desde outubro do ano passado, quando um cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos previa a abertura do terminal numa fase inicial. A ocupação israelita do lado palestiniano, em maio de 2024, manteve a passagem hermeticamente fechada. Um dos últimos obstáculos formais – a localização de todos os reféns israelitas – poderá ter sido removido com a entrega, na segunda-feira, pelos próprios militantes do Hamas, dos restos mortais do polícia Ran Gvili. Apesar deste desenvolvimento, as autoridades israelitas evitam comprometer-se com um calendário, deixando no ar uma sensação de expectativa cautelosa e um tanto frustrada entre a população gazense.
NR/HN/Lusa



0 Comments