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O apelo formal foi lançado esta manhã pelo Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), que traça um quadro quase insustentável para 2026. Os números, na verdade, falam por si e não deixam grande margem para otimismos. São necessários, com urgência, 852 milhões de dólares, algo como 712,36 milhões de euros, para tentar mitigar um sofrimento que já toca a quase metade da população do país.
A situação, dizem os especialistas no terreno, é uma combinação perversa de fatores que se alimentam uns aos outros. Uma seca implacável, a mais severa desde 1981 em algumas regiões do norte, onde choveu 60% abaixo da média em quatro estações consecutivas. Conflitos armados que não dão tréguas, com choques entre clãs, ataques de retaliação e operações militares contra grupos extremistas. E, por fim, o fantasma da fome e das doenças, que reaparece com uma força brutal.
Entre outubro e dezembro do ano passado, a coisa atingiu um patamar verdadeiramente alarmante. Cerca de 4,4 milhões de pessoas, o equivalente a 23% dos somalis, entraram na fase 3 da classificação internacional de insegurança alimentar, a chamada fase de “crise”. Dessas, perto de um milhão, precisamente 921.000 indivíduos, já estão no patamar seguinte, o de “emergência”. A ausência total de chuvas entre julho e setembro no norte, e depois entre outubro e dezembro em todo o território, criou um cenário dantesco. As temperaturas, a rondar os 40 graus, secaram pastagens e poços, mataram gado e forçaram deslocações em massa de comunidades pastoris que viram os seus meios de vida tradicionais evaporarem-se.
O custo da água disparou. E a saúde pública, frágil como sempre, está à beira do colapso. O acesso limitado a água potável e as más condições de higiene nos acampamentos para deslocados estão a provocar surtos de doenças que, noutras circunstâncias, seriam facilmente controláveis. Fala-se de diarreias agudas, cólera e outras infeções que estão a afetar sobretudo crianças. Estima-se que 1,85 milhões de crianças com menos de cinco anos sofrerão de desnutrição aguda até julho, das quais 421.000 em estado grave.
E há ainda a guerra, esse fator constante e disruptivo. A imprevisibilidade dos movimentos no terreno, por causa de pontos de controlo informais, estradas minadas ou hostilidades abertas, está a dificultar muito a chegada da ajuda. Os atrasos são frequentes, os custos logísticos disparam e as autorizações de viagem tornaram-se num pesadelo burocrático para as equipas humanitárias. Danos em infraestruturas críticas e a cobrança de taxas ilegais em estradas complicam ainda mais uma missão que já era, por si só, hercúlea.
O comunicado do OCHA, divulgado na rede social X, é um documento cru. Não usa rodeios. Afirma, de forma clara, que os efeitos combinados da seca, do conflito e da escalada no preço dos alimentos básicos e da água importada elevaram a insegurança alimentar a “níveis críticos”. O apelo de 712 milhões é, portanto, um esforço para responder a uma necessidade que é, acima de tudo, vital. Sem ele, o ano de 2026 poderá ficar marcado por uma tragédia de proporções históricas no Corno de África.
NR/HN/Lusa



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