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Os casos de violência sexual atendidos na clínica Pran Men’m, um espaço gerado pelos Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Porto Príncipe, mais do que triplicaram desde 2022. O dado surge num relatório divulgado esta semana que pinta um quadro brutal da crise humanitária no Haiti, onde grupos armados dominam cerca de 90% da capital. Diana Manilla Arroyo, chefe da missão da organização no país, descreveu a situação como “alarmante e indignante”, sublinhando não só o volume mas também a extrema crueldade dos ataques.
A análise dos atendimentos revela padrões perturbadores. Mais de metade dos pacientes foi agredida por múltiplos elementos de gangues, com registos de mais de uma centena de pessoas atacadas simultaneamente por dez ou mais agressores. A média, ainda assim assombrosa, é de três atacantes por caso. A clínica, que funciona há uma década, já tratou perto de 17 mil sobreviventes. Só nos primeiros nove meses de 2025, contabilizou 2.300 novos pacientes, entre os quais mais de 350 eram homens e rapazes.
Houve uma mudança marcante no perfil das vítimas. Se antes de 2022 metade dos casos envolvia menores de 18 anos, essa proporção caiu para 24%. Em contrapartida, os atendimentos a pessoas entre os 50 e os 80 anos multiplicaram-se por sete. Especialistas e ativistas no terreno explicam que a violência sexual é instrumentalizada pelos gangues como ferramenta para aterrorizar comunidades, consolidar poder durante tomadas de território ou mesmo para controlar a distribuição de ajuda humanitária.
O contexto de deslocamento maciço agrava a exposição. Com a violência a forçar cerca de 1,4 milhões de pessoas a abandonar as suas casas, muitas vivem em abrigos improvisados e extremamente vulneráveis. Dados das Nações Unidas indicam que quase 70% das pessoas que procuraram ajuda após abusos entre janeiro e setembro de 2025 eram deslocadas internas. A própria clínica dos MSF enfrenta agora dificuldades inéditas para encontrar abrigos seguros que aceitem receber os seus pacientes, especialmente mulheres grávidas, com filhos ou que necessitem de cuidados médicos continuados.
O medo e o estigma continuam a ser barreiras intransponíveis para muitos. O receio de represálias e a profunda desconfiança no sistema judicial e policial afastam as vítimas da denúncia formal. Pascale Solages, coordenadora do coletivo feminista Nègès Mawon, referiu que o grupo tem usado teatro, música e outras expressões artísticas para criar espaços seguros onde as sobreviventes possam partilhar as suas experiências. “É um processo árduo, mas encontram uma forma de compreender a sua própria realidade”, afirmou Solages.
Para fazer face à catástrofe, os MSF exortam o governo haitiano a canalizar mais fundos para cuidados de saúde gratuitos e serviços especializados. Entre as medidas práticas imediatas sugeridas está a criação de uma linha telefónica de apoio governamental, operacional 24 horas por dia, para fornecer orientação confidencial e encaminhar as pessoas para os recursos existentes. O apelo surge num momento em que a insegurança no Haiti atinge níveis sem precedentes, com a população civil a pagar o preço mais alto.
NR/HN/Lusa



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