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A efeméride dos dois anos da Unidade de Intervenção Cardiovascular (UIC) da ULS da Cova da Beira, oficializada a 1 de fevereiro, foi antecipada esta quarta-feira com um simbolismo operacional. No Hospital Pêro da Covilhã, a equipa liderada pelo cardiologista Marco Costa estreou duas técnicas complexas, marcando uma nova fase no tratamento de patologia cardíaca estrutural na região. O dia foi preenchido com um procedimento MitraClip para a insuficiência mitral e outro com suporte do dispositivo Impella, destinados a doentes considerados inoperáveis pelos métodos convencionais.
Para Marco Costa, a narrativa destes 24 meses transcende os números, embora esses também os contenham. “Estamos a ter uns tempos magníficos”, admitiu, referindo-se sobretudo à Via Verde Coronária para o tratamento de enfartes. Mas o cerne, insiste, é outro: a tal medicina de proximidade que tira peso dos doentes e das famílias. “Evitar que os doentes façam uma viagem longa, com os perigos inerentes ao transporte”, disse, sublinhando a diferença prática de ter o serviço ali, num hospital que nem é de grande centro urbano. O MitraClip, explicou de forma desarmadamente simples, “é uma espécie de clipe, uma prótese, que vai juntar dois furetes que estão doentes”. O objetivo é pragmático: diminuir a insuficiência, melhorar a qualidade de vida e reduzir as queixas. E fazê-lo de modo minimamente invasivo, “muito seguro”, sem abrir o tórax.
O caminho, contudo, não foi linear. O primeiro ano foi de arranque, com foco na intervenção estrutural não valvular. Agora, este segundo procedimento do dia, a primeira intervenção valvular propriamente dita, representa um patamar diferente. “Um procedimento muito seguro, bastante tranquilo, mas muito diferenciador”, considerou Costa. Exige uma expertise específica e, não raro, os nervos à flor da pele na sala. É, nas suas palavras, um “tratamento complementar à cirurgia” que abre uma porta que antes parecia fechada.
O impacto reverbera além dos limites da UIC. Luís Oliveira, diretor do Serviço de Cardiologia, observa que a criação da unidade “trouxe uma face diferente ao funcionamento de todo o serviço e até de todo o hospital”. A referência mudou. O hospital passa agora a receber a referência de doença coronária, aguda e estável, e consegue dar resposta local aos enfartes da região. Alguns doentes, após a intervenção, permanecem internados antes da alta e, depois, seguem no ambulatório. É um ciclo completo que se fecha no próprio interior da instituição.
Há, naturalmente, uma dimensão humana por trás da tecnologia. O trabalho, como não podia deixar de ser, é coletivo. “Todo o hospital está envolvido nisto”, descreve Marco Costa, enumerando desde o serviço de urgência até a cardiologia no seu todo e os cuidados intensivos. “Os resultados são mérito de todos”, afirma, num tom que mescla o orgulho com a consciência de que, em medicina, poucas coisas são conquistas solitárias. Dois anos podem parecer pouco no calendário frio de um serviço de saúde. Mas para os doentes da Beira Interior que já não precisam de viajar centenas de quilómetros em estado crítico, ou para aqueles que encontram numa técnica como o MitraClip uma última opção viável, são um marco considerável. A unidade, agora com valvuloplastias no seu portfólio, parece ter encontrado o seu ritmo.
NR/HN/Lusa



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