Fantasma da lepra assombra Nampula num crescente surto de doenças silenciadas

29 de Janeiro 2026

As autoridades sanitárias da província de Nampula, norte de Moçambique, soam o alarme face ao recrudescimento preocupante de doenças tropicais negligenciadas. Dados oficiais de 2025 revelam milhares de infeções, com a lepra, considerada eliminada, a regressar em força, contabilizando mais de 1.300 novos diagnósticos no último ano

O Hospital Central de Nampula, numa nota interna a que a Lusa teve acesso, descreve um panorama sanitário grave, onde patologias como a filariose linfática, as parasitoses intestinais, a esquistossomose e a escabiose proliferam com intensidade. A raiz do mal, apontam os serviços de saúde, está fincada no solo movediço do desenvolvimento: saneamento ambiental francamente débil e um acesso ainda muito limitado a fontes de água potável para uma franja significativa da população. Não se trata de um drama novo, mas de uma chaga social que teima em persistir e até agravar-se, desafando esforços pontuais. No concreto, os números desenham uma realidade austera. A filariose linfática, causadora da elefantíase, afetou 2.554 pessoas no ano passado, com os distritos de Nampula, Moma e Meconta no topo da incidência. As parasitoses intestinais, quase sempre subnotificadas, dispararam para um patamar que ronda os cinquenta mil casos, enquanto a esquistossomose, doença do caracol, foi diagnosticada em 38.900 indivíduos. Uma verdadeira epidemia silenciosa que corrói a saúde pública. Contudo, é o reaparecimento da lepra que concentra agora apreensões especiais. O documento do hospital central usa um tom de franca preocupação ao assinalar que a enfermidade, dada como eliminada em tempos passados, voltou com um ímpeto inesperado. Os 1.389 casos notificados em 2025 funcionam como um sinal vermelho que não pode ser ignorado. Esta tendência de crescimento nacional já tinha sido sublinhada, a final do ano transato, por Pedro Safrão, diretor da Missão contra a Lepra. A organização, que atua no país há mais de três décadas, alertou então que apenas em 2024 Moçambique diagnosticara mais de 2.800 novos infetados, sendo que desses, uma percentagem superior a 10% eram crianças com menos de 15 anos. Um dado que fala por si e expõe a transmissão ativa nas comunidades. Perante este cenário, a receita das autoridades de Nampula não se afasta do conhecido, mas insiste na urgência da sua aplicação cabal. Defendem, de forma clara, um reforço substantivo das campanhas de prevenção e educação sanitária, aliado a um salto qualitativo no saneamento básico e no acesso universal a água segura. A solução, sugerem, terá de passar necessariamente por um envolvimento multissetorial, convocando outros ministérios para além da Saúde, se o objetivo de eliminação destas doenças até 2030 quiser ser mais do que uma miragem num horizonte cada vez mais turvo. A estrada, reconhecem implicitamente, será longa e acidentada.

NR/HN/Lusa

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