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Catarina Marques, médica ginecologista, realça que o impacto da quimioterapia e da radioterapia na função reprodutiva é uma realidade para muitos doentes, mas que a discussão pública é assimétrica. “A preservação da fertilidade masculina continua a ser muito pouco abordada”, constata a especialista, notando um foco desproporcional na questão feminina. Esta lacuna persiste mesmo perante procedimentos estabelecidos, como a criopreservação de espermatozoides, descrita como simples e segura.
As previsões da Organização Mundial da Saúde, que anteveem 35 milhões de novos diagnósticos anuais dentro de cerca de duas décadas, acrescentam urgência a este debate. Catarina Marques insiste que marcar efemérides, como o Dia Mundial do Cancro, deve servir para alargar o olhar. “Falar de fertilidade depois do diagnóstico não é apenas falar de maternidade. É falar de qualidade de vida, de escolhas futuras e do direito à informação”, defende. Para ela, reconhecer os desafios comuns a ambos os sexos é um passo decisivo.
No turbilhão emocional que se segue a um diagnóstico, a prioridade imediata é, e será sempre, a sobrevivência. Acontece que é precisamente nessa fase crítica que se abre um curto espaço para decisões com repercussões duradouras. A criopreservação de ovócitos ou de esperma pode, assim, funcionar como um resguardo para projetos de vida ainda não delineados. A medicina reproduzitiva oferece, depois, um leque de possibilidades, desde a recuperação espontânea até ao uso do material genético preservado.
O caminho é invariavelmente pessoal. “O essencial é que exista acompanhamento especializado e que cada situação seja avaliada individualmente”, remata a médica. O que parece claro é que, à medida que a ciência prolonga a vida, cresce também a necessidade de se olhar para a sua qualidade a longo prazo, incluindo as dimensões mais íntimas e, por vezes, silenciadas.
PR/HN/MM



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