Ministra evita audição parlamentar e PS considera silêncio insustentável

29 de Janeiro 2026

A bancada socialista acusou a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, de se furtar ao escrutínio no Parlamento. Mariana Vieira da Silva considerou a ausência de respostas perante os problemas do setor cada vez menos sustentável, após a governante ter adiado uma comparecência na comissão de Saúde

 Partido Socialista acusou esta quinta-feira a ministra da Saúde de fugir ao escrutínio democrático, num plenário que transformou o hemiciclo numa câmara de eco das críticas ao executivo. Mariana Vieira da Silva, deputada e antiga ministra de Estado, não poupou nas palavras para descrever o que chamou de evasão constante de Ana Paula Martins. “Não dar a cara é imperdoável, não dar a cara é irresponsável”, afirmou, sublinhando que a situação se torna “cada vez mais insustentável” à medida que se agravam as dificuldades no Serviço Nacional de Saúde.

A intervenção da socialista surgiu no seguimento de uma polémica iniciada na véspera, quando o Chega revelou que a ministra informara estar indisponível para uma audição regimental na comissão parlamentar de Saúde, marcada há meses. Mariana Vieira da Silva confirmou o adiamento, acrescentando um dado picante: na anterior legislatura, sob governo do PS, as ausências da então ministra teriam sido “praticamente todas as audições”. O Ministério dos Assuntos Parlamentares veio mais tarde esclarecer, num comunicado, que a governante se disponibilizou para ser ouvida no dia 18 de fevereiro, uma justificação que não aplacou os ânimos.

A crítica da deputada socialista assentou numa visão pessimista da evolução do setor nos últimos dois anos. Reconheceu que os anteriores governos, incluindo os que integrou, não resolveram todos os nós, mas defendeu que havia um caminho de melhoria que se perdeu. “Temos mais dificuldade no acesso aos profissionais, temos menos integração de cuidados, temos o INEM a responder pior”, enumerou, atribuindo a degradação à “instabilidade” que a atual ministra terá introduzido. O seu discurso, porém, não colheu unanimidade.

Da direita à esquerda, vários partidos concordaram com a fotografia dos problemas, mas apontaram o dedo também ao PS. Joana Cordeiro, da Iniciativa Liberal, perguntou “onde o PS esteve durante oito anos”, argumentando que as fragilidades atuais já existiam. Fabian Figueiredo, do Bloco de Esquerda, ripostou de imediato, questionando se a deputada liberal conhece “algum país onde o modelo proposto pela IL funcione melhor que o Serviço Nacional de Saúde”. Foi um breve mas intenso cruzamento de argumentos que expôs clivagens fundamentais.

Mais à esquerda, Isabel Mendes Lopes, do Livre, expressou a perceção de uma perda de confiança dos portugueses e defendeu que, embora o setor privado tenha um papel, “não pode ser um sistema concorrencial”. Pelo PCP, Paula Santos acusou o Governo de um “plano deliberado de desmantelamento”, não sem antes lembrar que, há quatro anos, foi o PS a chumbar propostas comunistas para valorizar os profissionais. Inês Sousa Real, do PAN, lamentou que socialistas e sociais-democratas se tenham juntado no passado para travar iniciativas do seu partido.

A terminar o ciclo de intervenções, coube ao PSD, que sustenta o Governo, responder. Francisco Sousa Vieira atirou a acusação para o campo socialista, afirmando que o PS “desarrumou completamente a casa” e que o executivo atual começou agora a arrumá-la. “O PS vai finalmente ajudar a arrumar o que desarrumou?”, questionou, num tom que encerrou o debate sem qualquer ponte visível para um consenso. A ministra da Saúde manteve-se ausente do plenário, sem qualquer declaração direta no decorrer da sessão. O seu silêncio, citado e recitado, pairou sobre o debate como um terceiro interveniente invisível.

NR/HN/Lusa

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MGF Cuidados Paliativos; Doutorando em Medicina, Docente de Bioética na Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior

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