António de Sousa Uva: médico e professor

Trabalho e Cancro, para além do amianto e do mesotelioma: a propósito de um caso

01/29/2026

Há umas décadas, no exercício da minha atividade como Médico do Trabalho numa grande empresa da Aviação Civil tive, entre outras, a incumbência de dar parecer ao Conselho de Administração em situações de pedido de facilidade de passagens em trabalhadores portadores de doença em tratamento fora do território Nacional. Nessa atividade recusei a herança então existente no serviço de circunscrever esse parecer apenas à análise documental, optando também por uma consulta presencial. Essas muitas dezenas (ou mesmo algumas centenas …) de consultas encerram histórias, a maior parte das vezes de grande complexidade, em muitos casos, de muita gravidade (e até dramatismo), em que as situações oncológicas eram prevalentes.

Recordo bem uma situação de um trabalhador com um ciclo de tratamentos prescrito numa clínica conhecida nos EUA no Estado de Minnesota, um dos seus 50 Estados localizado a norte. Tratava-se de um cancro da bexiga, num trabalhador que nunca tinha sido fumador, que desempenhava a sua função como membro de uma equipa navegante de cabina, em que uma exposição profissional seria inverosímil que pudesse estar, eventualmente, na sua origem.

Talvez a minha especialização em Imunoalergologia me tenha habilitado a realizar histórias clínicas muito pormenorizadas e, igualmente, muito extensas numa tarefa que se pode denominar “caça alergénio” e, consequentemente, pela grande probabilidade de a etiologia da situação oncológica ter origem profissional, fui muito insistente na busca de uma história pregressa com exposição a substâncias químicas que pudessem estar na origem daquele quadro nosológico. Em consequência dessa investigação, obtive a informação de que detinha e realizava actividade, há alguns anos, uma Lavandaria e Tinturaria, o que justificou a sugestão de comunicar esse facto ao Oncologista americano que o seguia, já que tal matéria nunca teria sequer sido aflorada nas situações clínicas até aí ocorridas.

Apesar de não saber do seu actual paradeiro, e de terapeuticamente ter pouca relevância, vim a receber, posteriormente, uma carta do seu Oncologista que me agradecia a lembrança e o meu interesse e “se desculpava” por não ter dado qualquer atenção a essa circunstância.

Há, de facto, localizações e tipo de cancros que têm uma importante frequência em determinados trabalhos, atividades ou exposições profissionais que tornam obrigatória a colheita de uma história profissional mais pormenorizada da que dever ser sempre realizada. As hipóteses diagnósticas de cancro da bexiga ou de cancro do pulmão são dois desses exemplos em que devemos sempre ter presente, em qualquer contexto clínico e não exclusivamente no exercício da Medicina do Trabalho, na exploração semiológica!

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