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O primeiro internato de Medicina de Urgência e Emergência arrancou esta quinta-feira no Hospital de Torres Novas, um marco aguardado há cerca de duas décadas e que coloca Portugal no grupo de países com formação específica nesta área. A cerimónia, que reuniu administradores e representantes do SNS e da Ordem dos Médicos, foi percorrida por um misto de satisfação e alerta solene: a especialidade é necessária, mas está longe de ser a solução única para as urgências asfixiadas.
Carlos Cortes, bastonário da Ordem, não escondeu a relevância do passo. “Esta especialidade não vai resolver todos os problemas do Serviço de Urgência, mas é essencial”, afirmou, defendendo que trará uma resposta qualificada e alívio para outras áreas. A sua intervenção rapidamente transitou para números que considera gritantes: entre seis a sete milhões de episódios de urgência anuais num país com pouco mais de dez milhões de habitantes. “É fundamental que o Ministério da Saúde tome decisões corajosas para colocar cada doente no lugar certo”, insistiu, numa clara chamada de atenção à necessidade de reforçar os cuidados primários.
Em vídeo, a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, descreveu o dia como “um momento histórico para a medicina portuguesa”. Sublinhou o preenchimento das vagas — 29 de 32 — como um sinal de entusiasmo e compromisso. A governante acredita que a especialidade consolidará protocolos, reduzirá a variabilidade clínica e ajudará a fixar profissionais, atenuando o desgaste que caracteriza aqueles serviços.
No terreno, Casimiro Ramos, presidente do Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde do Médio Tejo, mostrou-se honrado pelo arranque acontecer em Torres Novas. Para ele, a presença destes futuros especialistas complementará o trabalho dos médicos generalistas, prometendo mais garantias e segurança. “É um dia importante para o SNS”, resumiu.
O internato, com duração de cinco anos, abrangerá estágios hospitalares e pré-hospitalares. Os médicos passarão por serviços de Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER), pelos Centros de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) e até por transporte aéreo. Uma formação abrangente que pretende criar um perfil capaz de lidar com a complexidade e imprevisibilidade da urgência.
A criação da especialidade insere-se no Plano de Emergência e Transformação da Saúde do Governo. No entanto, o tom dominante entre os intervenientes foi o de que este é um instrumento valioso, mas não uma varinha mágica. Ficou no ar, quase como um sussurro incómodo por baixo dos discursos oficiais, a perceção de que as urgências continuam sob uma pressão extrema e que a sua revitalização exigirá muito mais do que a chegada de novos especialistas. Exigirá, nas palavras do bastonário, coragem para reformas profundas. O caminho, afinal, está apenas a começar.
NR/HN/Lusa



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