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Num comunicado emitido a partir de Genebra, Mirjana Spoljaric não deixou margem para dúvidas: após um processo complexo de repatriação de reféns, detidos e restos mortais que consumou semanas de mediação discreta, é tempo do mundo focar-se no drama humano que persiste em Gaza. Aquele organismo facilitou, desde o início do conflito em 2023, o regresso de 195 reféns, incluindo 35 falecidos, e de 3.472 detidos palestinianos. Com a devolução dos restos mortais do último dos 251 reféns israelitas na passada segunda-feira, abriu-se caminho para a reabertura crucial da passagem de Rafah. Contudo, Spoljaric frisou que este passo, vital, é apenas um prelúdio para o desafio colossal que se avizinha.
A paisagem no enclave é, nas suas palavras, um testemunho de devastação. Milhares de famílias ainda vagueiam num limbo de ausência, sem notícias dos seus. Muitos sobrevivem literalmente debaixo de escombros, uma realidade agravada pelo frio do inverno. Hospitais, escolas e a frágil rede de abastecimento de água são fantasmas daquilo que um dia foram. E o solo, acrescentou, está semeado de engenhos não detonados, uma ameaça silenciosa e duradoura.
Por isso, o apelo é claro: a comunidade internacional deve aproveitar todas as aberturas para aliviar o sofrimento. Spoljaric foi específica ao referir a necessidade premente de flexibilizar as restrições à entrada de bens de dupla utilização. Itens como tubulações para água e geradores, essenciais para restaurar um mínimo de normalidade, não podem continuar a ser tratados com hesitações burocráticas. É uma questão de necessidade prática imediata.
Os números mais recentes, divulgados na quarta-feira pelo Ministério da Saúde de Gaza, falam por si: 71.667 mortos e 171.343 feridos em resultado dos bombardeamentos israelitas. As autoridades de saúde locais ressalvam, contudo, que muitos corpos permanecem soterrados em zonas inacessíveis, o que significa que a contagem final será certamente mais pesada. O cessar-fogo, em vigor desde 10 de outubro de 2025, interrompeu dois anos de hostilidades que começaram com o ataque do Hamas em outubro de 2023 ao sul de Israel, onde pereceram cerca de 1.200 pessoas. A retaliação israelita subsequente moldou a tragédia atual em Gaza, marcada por um desastre humanitário de larga escala, pela destruição quase total das infraestruturas e pelo deslocamento massivo de centenas de milhares de civis.
O tom do apelo de hoje sugere uma certa frustração perante a lentidão da resposta. Apesar da janela de oportunidade criada pela trégua, a assistência no terreno continua a ser um exercício de obstáculos. A Cruz Vermelha, que manteve linhas de comunicação operacionais com todas as partes durante o conflito mais agudo, insiste agora que a fase da emergência aguda deu lugar a uma crise de reconstrução e sobrevivência diária. Um desafio que, segundo a organização, exige uma mobilização internacional coordenada e sem reservas. O tempo, parece querer dizer Spoljaric, não é um aliado para quem vive entre as ruínas.
NR/HN/Lusa



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