ANEM adverte: instabilidade política trava resolução de défices no internato

31 de Janeiro 2026

A nova presidente da Associação Nacional de Estudantes de Medicina, Maria Fontão, alertou que a sensibilidade das políticas de saúde às legislaturas impede solucionar problemas de base. A inversão no preenchimento de vagas para especialidade, sobretudo em Medicina Geral e Familiar, é um sinal de planeamento deficiente e falta de atratividade da carreira

Os problemas de preenchimento de vagas no internato médico de certas especialidades refletem falhas profundas e arrastadas no planeamento e na atratividade da carreira no Serviço Nacional de Saúde (SNS). A análise é da Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM), que aponta o dedo à instabilidade política no setor. Em declarações à Lusa, a nova presidente da associação, Maria Fontão, não usou meias palavras para descrever um panorama que, diz, se agravou sucessivamente.

“São problemas que não são desta legislatura, nem da anterior, nem da anterior”, afirmou, sublinhando a natureza multifatorial de uma questão que carece, primeiro, de melhor compreensão. Há uma inversão clara no padrão recente. Se outrora as vagas eram escassas para os médicos recém-formados, agora tendem a sobrar, com destaque para as especialidades de Medicina Geral e Familiar e Medicina Interna. São justamente estas que enfrentam os percalços mais graves, um paradoxo num sistema que clama por mais profissionais nessas áreas.

Mas os números totais, avisa Fontão, podem iludir. Portugal até tem uma razão de médicos por mil habitantes, comparativamente à média europeia, segundo a OCDE. No entanto, essa estatística pouco revela sobre quantos exercem efetivamente clínica, ou sobre a sua distribuição geográfica. “É difícil avançarmos com uma análise e soluções concretas quando nós próprios não conseguimos entender a extensão do problema”, insistiu. Sem dados fiáveis sobre a distribuição e os fluxos migratórios dos profissionais, qualquer política de saúde fica, no seu entender, condenada a uma base frágil e a uma avaliação posterior complicada.

A coesão territorial surge, naturalmente, como um dos fatores espinhosos. É um “problema muito complexo”, que condiciona as escolhas, não apenas nas regiões do interior, mas também em zonas críticas como Lisboa e Vale do Tejo, ainda que por razões distintas. A dirigente chamou ainda a atenção para outro aspeto menos evidente: mesmo os serviços com preenchimento satisfatório de vagas podem esconder dificuldades. A sobrecarga assistencial que muitas vezes enfrentam rouba o tempo necessário para a formação adequada dos internos. “É um problema que nos deve alarmar”, disse, “porque, no limite, vai condicionar a qualidade dos cuidados de saúde se tivermos médicos menos preparados”.

Perante este emaranhado de questões estruturais, a ANEM vê com bons olhos a proposta de um pacto para a saúde lançada pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. A ideia de alinhar Governo e partidos em políticas de longo prazo parece-lhe um caminho necessário para escapar à lógica de experimentalismo que tem marcado o setor. “Enquanto tivermos políticas de saúde altamente sensíveis às legislaturas e que mudam consistentemente de legislatura para legislatura, é difícil resolver problemas”, sustentou Maria Fontão. É como andar sempre a mudar de rumo sem nunca se sair do mesmo sítio.

Na busca por compreender os fatores que levam os jovens médicos a optar por uma especialidade ou mesmo a considerar carreiras fora da prática clínica, a ANEM propôs recentemente ao Governo a realização de um estudo aprofundado. Um trabalho à imagem do “AIM Study” britânico, que possa servir de base para um planeamento de recursos humanos mais informado e, quem sabe, mais eficaz. É um ponto de partida possível para desatar um nó que se foi apertando ao longo de anos.

NR/HN/Lusa

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