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Um grupo de cientistas da Universidade de Tecnologia de Chalmers, na Suécia, em colaboração com o Hospital Universitário de Oslo, deparou-se com um achado que poderá mudar o curso do combate à doença de Parkinson. A descoberta, publicada na revista npj Parkinson’s Disease, assenta na identificação de uma assinatura molecular específica no sangue de indivíduos numa fase prodrómica da doença, isto é, muito antes do aparecimento dos sintomas motores característicos, como tremores ou rigidez. Este padrão, detetável apenas durante um período limitado, ilumina uma janela de oportunidade crítica para diagnóstico e potencial intervenção terapêutica.
A equipa, liderada pela professora auxiliar Annikka Polster, concentrou-se em dois mecanismos biológicos suspeitos de estarem ativos nos primórdios da patologia: o sistema de reparo de danos no ADN das células e a resposta celular integrada ao stresse. Através de técnicas de aprendizagem automática e análise genética, os investigadores conseguiram isolar um padrão distinto de atividade génica associado a esses processos em doentes com Parkinson prodrómico. Curiosamente, essa assinatura não foi encontrada em indivíduos saudáveis nem em doentes já com sintomas motores consolidados, sugerindo que se trata de um fenómeno transitório, mas crucial, da fase inicial da doença.
“Quando os sintomas motores do Parkinson se manifestam, uma grande parte das células cerebrais relevantes já está frequentemente danificada ou perdida. Conseguir detetar a doença antes desta fase de destruição mais extensa é um objetivo fundamental”, afirmou Danish Anwer, estudante de doutoramento e primeiro autor do estudo. A descoberta agora anunciada representa um passo concreto nesse sentido, pois indica que os processos patológicos iniciais deixam rastos mensuráveis na corrente sanguínea, um meio de acesso relativamente simples e pouco invasivo.
Até agora, a busca por indicadores precoces de Parkinson tinha explorado outras vias, como análises ao líquido cefalorraquidiano ou técnicas de imagem cerebral, mas sem resultar em métodos de rastreio generalizáveis. “Os biomarcadores que destacamos provavelmente refletem alguma da biologia precoce da doença e mostrámos que podem ser medidos no sangue. Isto abre caminho para testes de rastreio amplo através de amostras de sangue: um método económico e de acesso fácil”, explicou Annikka Polster. O facto de estes padrões se desvanecerem com a progressão da enfermidade torna-os igualmente alvos interessantes para o desenvolvimento de futuros tratamentos, que possam travar os mecanismos em ação.
A equipa estima que, dentro de um prazo de cinco anos, possam começar a ser testados no sistema de saúde os primeiros exames sanguíneos para diagnóstico precoce. Os próximos passos da investigação passarão por desvendar com maior precisão o funcionamento dos mecanismos identificados e refinar as ferramentas de deteção. A longo prazo, o conhecimento gerado pode orientar não só o reposicionamento de fármacos existentes — utilizados noutras doenças que partilhem vias biológicas semelhantes — como a criação de novos medicamentos capazes de impedir ou retardar a progressão neurodegenerativa.
A doença de Parkinson, que afeta atualmente mais de 10 milhões de pessoas em todo o mundo, vê a sua prevalência projetada para mais do que duplicar até 2050, num contexto de envelhecimento populacional global. A ausência de uma cura eficaz ou de métodos de rastreio estabelecidos sublinha a importância de descobertas que apontem para novas estratégias de abordagem. Este trabalho, financiado por entidades como a Fundação Michael J. Fox e o Conselho de Investigação da Noruega, insere-se nesse esforço coletivo, oferecendo uma pista tangível que parte de uma simples amostra de sangue.
Referência bibliográfica:
Anwer, D., Montaldo, N.P., Novoa-del-Toro, E.M. et al. Longitudinal assessment of DNA repair signature trajectory in prodromal versus established Parkinson’s disease. npj Parkinsons Dis. (2026). https://doi.org/10.1038/s41531-025-01194-7
NR/HN/AlphaGalileo



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