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Um estudo observacional liderado por investigadores da Universidade da Basileia, na Suíça, trouxe à luz dados que sugerem um impacto clínico significativo na sequência de uma complicação silenciosa mas perigosa. A investigação, publicada no European Heart Journal, centrou-se na lesão miocárdica perioperatória (PMI, na sigla em inglês), um evento comum e frequentemente assintomático que ocorre durante ou após cirurgias não cardíacas, e que é um forte previsor de complicações futuras.
A equipa, coordenada pelo Professor Christian Müller e com primeiras autoria dos doutores Christian Puelacher e Noemi Glarner, seguiu um grupo de 1048 doentes que sofreram PMI após intervenções como cirurgias ortopédicas. Estes doentes, considerados de alto risco devido à idade superior a 65 anos ou a doenças cardiovasculares prévias, foram tratados em enfermarias cirúrgicas. Uma circunstância prática ditou o rumo da análise: apenas 614 doentes (58.6%) receberam avaliação formal por um cardiologista durante a internamento. Os restantes 434 (41.4%) não foram vistos pelo especialista, muitas vezes devido a contingências logísticas como fins-de-semana ou feriados, ou devido à priorização de casos mais urgentes.
Os resultados, ajustados para múltiplos fatores de confusão, revelaram uma associação marcante. Os doentes avaliados por um cardiologista apresentaram uma probabilidade 35% menor de morrer no ano seguinte à cirurgia. Adicionalmente, o risco de sofrer um evento cardiovascular major – como um novo enfarte, insuficiência cardíaca, arritmia grave ou morte de causa cardiovascular – foi 46% mais baixo. O Dr. Christian Puelacher explicou que o stresse cirúrgico, incluindo a anestesia, a perda de sangue e as alterações de pressão arterial, desafia o coração. “Em doentes de alto risco, a PMI ocorre em aproximadamente 15% dos casos, geralmente sem quaisquer sintomas”, afirmou.
A análise mostrou ainda que o grupo acompanhado pelo cardiologista foi submetido a mais exames de imagem cardíaca e recebeu com maior frequência medicamentos específicos para a condição cardiovascular. “O nosso estudo mostra que ter um cardiologista envolvido nos cuidados após uma PMI está associado a menos problemas cardíacos graves e a uma melhor sobrevivência um ano depois”, resumiu Puelacher, que realçou a importância da “estreita colaboração entre as equipas cirúrgicas e cardíacas”.
A Dra. Noemi Glarner fez uma ressalva fundamental sobre a natureza do trabalho. “Esta é uma investigação observacional, que não pode provar uma relação de causa e efeito, mesmo com fortes ajustes para outros fatores. Como padrão-ouro, é necessário um ensaio clínico randomizado para confirmar definitivamente os resultados.” A equipa está agora a conduzir um estudo de implementação de rastreio sistemático de PMI em hospitais da Suíça e da Áustria.
Num editorial que acompanha o artigo, o Professor William Weintraub, da Universidade de Georgetown, considerou o estudo “valioso” e abordando uma questão de gestão “importante e potencialmente modificável”. Weintraub e o seu colega elogiaram a condução rigorosa da investigação, mas também alertaram para a impossibilidade de excluir totalmente a influência de variáveis não medidas. Apesar das limitações, consideraram que as evidências apontam para um benefício clínico. “É altamente provável que todas as partes interessadas, incluindo profissionais de saúde, sistemas de saúde e, especialmente, os doentes, favoreçam uma consulta estruturada por um cardiologista neste contexto”, concluíram.
Referência bibliográfica:
Puelacher, C., Glarner, N., et al. (2026). Cardiology consultation and long-term clinical outcomes after perioperative myocardial infarction/injury. European Heart Journal. https://doi.org/10.1093/eurheartj/ehae001.
Weintraub, W., & Alexander, K. (2026). Editorial: Cardiology consultation after perioperative myocardial infarction/injury: Is it time? European Heart Journal. https://doi.org/10.1093/eurheartj/ehae002.
NR/HN/AlphaGalileo



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