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Uma equipa da Universidade de Alicante deparou-se com uma enzima cujas propriedades invulgares poderão reconfigurar o panorama da engenharia genética. O achado, fruto do escrutínio de material genético coletado em águas residuais — um repositório inesperado de diversidade biológica —, resultou na identificação da AlCas12a. A sua morfologia compacta, cerca de um quinto mais pequena do que as variantes comerciais correntes, não é um mero detalhe técnico: facilita de forma decisiva a sua introdução nas células, um dos obstáculos práticos mais persistentes nas terapias génicas. O grupo de Microbiologia Molecular, capitaneado por Francis Mojica, pioneiro na investigação dos sistemas CRISPR, trabalhou com Ignacio Baquedano, Javier Espinosa, Noemí Marco e Riccardo Rosselli para caracterizar uma ferramenta que exibe uma dupla capacidade de corte, cis e trans, algo que amplia consideravelmente o seu leque de aplicações.
No domínio do corte cis, a enzima comporta-se como uma tesoura molecular de altíssima fidelidade, permitindo intervenções cirúrgicas no ADN para corrigir mutações ou introduzir traços genéticos. Já a atividade trans, um frenesim de clivagem não específica de material genético de cadeia simples, é o que entusiasma os especialistas em diagnóstico. Essa função pode ser explorada para detetar a presença de um vírus ou bactéria com uma sensibilidade extrema, prometendo testes mais céleres e acessíveis. Curiosamente, e contrariando o que era expectável, a AlCas12a demonstrou capacidade de atuar mesmo na ausência de um RNA guia, atacando genomas invasores de forma mais ampla. Mojica descreve este comportamento como um sistema de defesa completo, que confere imunidade inata e adaptativa às bactérias que o albergam.
Nos ensaios de laboratório, os números falam por si: uma eficácia de edição genética na ordem dos 94% e uma proteção robusta conferida a bactérias contra uma panóplia de vírus. A estabilidade térmica da enzima, que se mantém ativa entre os 20 e os 45 graus Celsius, sugere uma compatibilidade ampla com organismos diversos, desde plantas a animais. É essa versatilidade, aliada ao seu tamanho reduzido, que a posiciona como um instrumento de futuro não só para terapias inovadoras, mas também para o desenvolvimento de agentes antibacterianos de nova geração e para o melhoramento de culturas agrícolas. O caminho desde as águas residuais até ao coração das mais avançadas plataformas de biotecnologia parece, agora, mais curto.
Referência bibliográfica: Universidad de Alicante. (2026, 28 de janeiro). A groundbreaking enzyme identified for next-generation gene editing. https://innoua.ua.es/en/la-enzima-alcas12a-que-corta-en-cis-y-en-trans–nueva-revoluci%c3%b3n-en-el-diagn%c3%b3stico-y-en-la-edici%c3%b3n-gen%c3%a9tica-31644
NR/HN/alphaGalileo



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