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A pesquisa, que contou com a participação de 101 indivíduos diagnosticados com depressão maior e ansiedade comórbida, dividiu os participantes em dois grupos. Um recebeu uma sessão ativa de 30 minutos de tDCS no córtex frontal, enquanto o outro foi submetido a uma estimulação simulada (placebo). Imediatamente após a intervenção, os participantes realizaram uma tarefa de controlo atencional dentro de um scanner de ressonância magnética, sendo depois expostos a uma tarefa de ameaça imprevisível de choque elétrico leve para medir a sua resposta de sobressalto.
Os dados da neuroimagem revelaram que, perante tarefas cognitivas mais exigentes, a tDCS ativa aumentou a atividade no giro frontal inferior bilateral, uma região cerebral associada ao controlo atencional. No entanto, e de forma contrária às hipóteses iniciais, quando a tarefa era menos exigente, a estimulação potenciou a resposta da amígdala, uma estrutura profundamente ligada ao processamento do medo e frequentemente descrita como o “sistema de alarme” do cérebro. Paralelamente, a resposta física de sobressalto perante uma ameaça imprevisível também se mostrou significativamente maior no grupo que recebeu a estimulação ativa.
Maria Ironside, investigadora principal do estudo pelo Laureate Institute for Brain Research e pela Universidade de Tulsa, comentou os resultados. “Em comparação com a estimulação simulada, a tDCS frontal aumentou a ativação do giro frontal inferior bilateral quando a tarefa era mais exigente e, inesperadamente, aumentou a resposta da amígdala quando a tarefa era menos exigente”, afirmou. “Não observámos os efeitos esperados na condição com rostos ameaçadores. Também vimos que a tDCS aumentou a resposta de sobressalto em condições de ameaça imprevisível”, acrescentou.
Esta descoberta do duplo efeito coloca novas questões sobre a aplicação clínica da tDCS, uma técnica não invasiva que modula a excitabilidade neuronal e que tem sido alvo de investigação para tratar a depressão, com resultados anteriores algo inconsistentes. O estudo sugere que, em vez de um tratamento isolado, a tDCS poderá ser mais útil como terapia adjuvante, potenciando o envolvimento atencional em protocolos que beneficiem desse estado, como certas psicoterapias.
Cameron S. Carter, editor-chefe da revista que publicou o estudo, realçou o contexto mais amplo. “Em comparação com outras tecnologias de estimulação cerebral, a tDCS é clinicamente mais viável e escalável com o desenvolvimento de dispositivos para uso doméstico”, referiu, salientando o seu potencial para aumentar as opções de telessaúde, especialmente em áreas com acesso limitado a cuidados de saúde mental presenciais. “Contudo, a tDCS ainda não é um tratamento estabelecido para doentes mais difíceis de tratar, como aqueles com ansiedade e depressão mista. Este estudo ajuda a esclarecer a utilidade potencial desta ferramenta nesta população”, concluiu.
A equipa de investigação defende que são necessários mais estudos para compreender os mecanismos subjacentes a estes efeitos paradoxais e para identificar quais os perfis de doentes que poderão beneficiar mais desta intervenção. “O veredicto ainda não é conhecido sobre se a tDCS pode ser um tratamento útil para a ansiedade e a depressão, embora a recente aprovação da FDA para tDCS doméstica para a depressão seja promissora”, finalizou Maria Ironside.
Referência Bibliográfica
Poplin, T., Kuplicki, R., Walker, E. A., Goldman, K., Ramsey, C., Balderston, N., Aupperle, R. L., Paulus, M. P., & Ironside, M. (2026). Frontal Cortex Stimulation Modulates Attentional Circuits and Increases Anxiety Potentiated Startle in Anxious Depression. Biological Psychiatry: Cognitive Neuroscience and Neuroimaging. https://doi.org/10.1016/j.bpsc.2025.10.020



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