![]()
A sobrevivência de doentes renais em tratamento de hemodiálise pode depender de um ajuste mais fino do que a prática clínica habitual tem permitido. É o que demonstra um trabalho liderado pela Fundação Espanhola do Rim, publicado na Clinical Kidney Journal, que defende um salto da dosagem padronizada para um regime verdadeiramente individualizado. O cerne da questão reside em algo aparentemente simples: tratar cada pessoa segundo a sua realidade física concreta, e não como um modelo médio. O estudo, que pegou em dados de 1.816 doentes de 15 centros espanhóis, cruzou durante anos informações de 317 mil sessões de diálise. Os investigadores partiram do pressuposto de que as metas de dose estabelecidas internacionalmente, ainda que úteis, podem deixar escapar nuances cruciais. E focaram-se em dois eixos de personalização: o sexo do indivíduo e o seu tipo de corpo, classificado em padrões específicos. O que se verificou foi elucidativo. Os doentes que atingiram as metas de dose ajustadas a ambos os fatores – sexo e tipo corporal – viram o seu risco de mortalidade nos 24 meses seguintes reduzido em mais de 60%, uma diferença de magnitude que surpreendeu a própria equipa. Contudo, e aqui reside uma das descobertas mais práticas, esse benefício protector quase esfumou-se para os que cumpriram apenas um dos critérios. Especificamente, atingir a dose considerada adequada apenas com base no sexo, ignorando a corpulência, não se traduziu em vantagem de sobrevivência a longo prazo. Isto levanta um ponto crítico para uma faixa específica de doentes. “Estes resultados enfatizam a necessidade de uma avaliação mais precisa da dose de diálise, sobretudo em doentes com excesso de peso ou obesidade”, pode ler-se no artigo, “que podem estar subtratados se forem aplicados critérios gerais.” A discussão, portanto, afasta-se de uma mera otimização técnica para entrar no domínio da equidade no cuidado. Um homem corpulento e uma mulher de pequena estatura recebem hoje tratamentos desenhados para um padrão? Aparentemente, sim, e com consequências mensuráveis. Os autores, ao difundir o estudo, foram perentórios: “Personalizar a diálise é uma necessidade”, afirmaram, considerando que essa adaptação, que deve também ter em conta idade, comorbilidades e até o tipo de acesso vascular, “pode traduzir-se numa melhor qualidade de vida e numa maior sobrevivência para milhares de pessoas.” A mensagem final é clara e apela a uma mudança de mentalidade: na hemodiálise, o tratamento ideal não é apenas o que cumpre um protocolo, mas aquele que se molda meticulosamente ao corpo que trata.
NR/HN/Lusa



0 Comments