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A elevada utilização de medicamentos como o paracetamol e o ibuprofeno entre os jovens do ensino secundário na região de Agder, no sul da Noruega, está a levantar questões sobre o seu bem-estar. Os dados, extraídos do amplo inquérito nacional Ungdata, indicam que uma percentagem significativa, cerca de 30%, recorre a estes analgésicos com uma frequência semanal ou mesmo diária. A investigadora Eva-Grethe Befus, autora de uma tese de doutoramento sobre qualidade de vida relacionada com a saúde em crianças e jovens, realça que o consumo vai além das queixas físicas. “São substâncias muito acessíveis e também eficazes, que proporcionam alívio. São tomadas para a ansiedade, para a depressão e para a dor física. Os jovens precisam de ajuda para gerir o que é difícil”, afirma Befus.
O estudo, que examinou as ligações entre fatores socioeconómicos, saúde mental e qualidade de vida, sugere uma sobreposição preocupante entre o mal-estar psicológico e o recurso a esta automedicação. A investigadora sublinha que muitos dos que reportam dificuldades estão, contudo, a ser acompanhados. “Aqueles que relatam passar por lutas, tanto com a saúde mental como com o uso de analgésicos, recebem efetivamente ajuda da enfermeira escolar ou de outros profissionais do serviço de saúde escolar. É tranquilizador saber que o apoio chega a quem precisa”, observa. A Noruega é um dos poucos países onde todas as escolas dispõem de uma enfermeira, um serviço que a pesquisa procurou avaliar.
Curiosamente, a análise de Befus revelou um padrão inesperado no que toca ao género dos utilizadores deste serviço. Embora, em termos gerais, as raparigas continuem a ser as que mais o procuram, o cenário inverte-se quando se isolam os estudantes que reportam problemas de saúde mental específicos. “Entre os que também relatam problemas de saúde mental, são os rapazes que têm maior probabilidade de pedir ajuda”, detalha a investigadora, assinalando uma nuance nos comportamentos de procura de apoio.
A pesquisa baseia-se inteiramente nas respostas autorrelatadas pelos jovens no inquérito Ungdata, um aspeto que a própria Befus contextualiza. Os números não equivalem, necessariamente, a diagnósticos clínicos. A investigadora defende que pais e professores podem desempenhar um papel crucial em ajudar os jovens a distinguir entre reações emocionais normais perante desafios e condições de saúde mental que requerem intervenção especializada. A ansiedade antes de um exame, exemplifica, não é o mesmo que um transtorno de ansiedade, tal como a tristeza após o fim de uma relação não configura, por si só, uma depressão. “Vivemos coisas dolorosas de vez em quando, mas isso faz parte da vida às vezes. Precisamos de conseguir distinguir entre reações normais aos desafios e diagnósticos clínicos. E os jovens precisam de ferramentas para gerir as suas dificuldades”, remata Befus, chamando a atenção para a necessidade de se oferecerem estratégias de gestão emocional alternativas ao consumo de medicamentos.
Referência bibliográfica:
“Children and youth take paracetamol and ibuprofen for anxiety and depression”. Universidade de Agder, 29 de janeiro de 2026. Disponível em: https://www.uia.no/english/research/research-news/health-and-sport-sciences/children-and-youth-medicines.html
NR/HN/AlphaGalileo



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