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A reparação dos danos no DNA nas células humanas não é um processo constante, mas segue um ritmo próprio, sincronizado com o ciclo natural de 24 horas. Uma investigação desenvolvida no Centro Andaluz de Biologia Molecular e Medicina Regenerativa (CABIMER) e na Universidade de Sevilha, com a colaboração do Hospital Universitário Virgen Macarena, conseguiu agora desvendar um dos interruptores moleculares que comandam essa oscilação. O estudo, publicado numa revista científica especializada, concentrou-se na proteína Circadiana Cryptochrome1 (CRY1), um dos principais reguladores do nosso relógio biológico interno.
Os cientistas verificaram que a atividade de reparação de quebras na dupla hélice do DNA atinge o seu pico nas primeiras horas da manhã, declinando progressivamente ao longo do dia. Esta flutuação não é aleatória. A proteína CRY1 atua como um travão molecular direto sobre o mecanismo de reparação. Quando os seus níveis estão baixos, de manhã cedo, o processo ocorre com máxima eficiência. À tarde e ao início da noite, a concentração de CRY1 aumenta naturalmente, inibindo a reparação e deixando as células mais vulneráveis a agentes que causam ruturas no DNA, como a radiação ionizante usada em radioterapia.
Esta descoberta laboratorial traduziu-se numa análise clínica retrospetiva de doentes do Virgen Macarena, abrindo uma porta concreta para a chamada cronoterapia. A equipa analisou dados de sobrevivência de indivíduos submetidos a radioterapia, tendo em conta a hora do dia do tratamento. Os resultados são reveladores: em tumores da mama e da próstata, a irradiação realizada no período da tarde ou início da noite — coincidindo com os níveis elevados de CRY1 — mostrou estar associada a um melhor prognóstico. A explicação parece residir no facto de as células cancerígenas, já com mecanismos de reparação comprometidos, se tornarem ainda menos capazes de lidar com os danos da radiação quando este travão circadiano está ativo. Curiosamente, o mesmo padrão não foi observado em doentes com cancro do pulmão ou gliomas, sugerindo que o efeito depende do contexto tumoral específico.
“Compreender que a maquinaria de reparação do DNA é regulada pelo relógio circadiano muda a perspetiva”, afirmou um dos investigadores principais do consórcio, que preferiu não ser identificado antes de novas publicações. “Não estamos apenas a administrar um tratamento; estamos a intervir num sistema biológico que tem fases de maior ou menor resiliência.” A equipa sublinha a necessidade de validação através de ensaios clínicos prospectivos e mais amplos, que confirmem se a adaptação dos horários de tratamento pode, de facto, ser incorporada na prática oncológica de rotina. A ideia, no fundo, é simples: sincronizar o relógio do tratamento com o relógio do corpo.
Referência Bibliográfica:
Mecanismo circadiano que liga o ciclo de 24 horas à reparação precisa de quebras de DNA identificado por equipa do CABIMER e da Universidade de Sevilha. Estudo em colaboração com o Hospital Universitário Virgen Macarena. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41326346/ [Consultado em 30/01/2026].



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