Diretrizes alimentares dos EUA promovem gordura saturada e geram alerta cardiovascular

1 de Fevereiro 2026

A revisão da pirâmide alimentar federal, que destaca carnes vermelhas e laticínios gordos, é contestada por cardiologistas. Especialistas apontam que a ênfase em proteínas com gordura saturada contradiz décadas de evidências científicas sobre riscos cardiovasculares e pode confundir o público. A mudança surge no âmbito da iniciativa Make America Healthy Again

As novas Diretrizes Alimentares para os Americanos 2025-2030, apresentadas em janeiro, geram uma dissonância rara entre autoridades federais e a comunidade médica especializada. O documento, que inverte a lógica das pirâmides anteriores, restringe cereais refinados e açúcares adicionados, mas coloca também a carne vermelha e outros alimentos ricos em proteína e gordura saturada num plano de destaque visual, ao lado de vegetais e frutas. Para os cardiologistas, trata-se de um raciocínio perigosamente invertido.

“Promover a gordura saturada e aumentar a quantidade de proteína vai contra toda a ciência da nutrição e da cardiologia”, afirma Kim Williams, diretor do departamento de medicina da Universidade de Louisville e ex-presidente do American College of Cardiology. Williams sublinha que a associação entre gordura saturada e mortes cardiovasculares é inequívoca após décadas de investigação. Ele questiona ainda a conformidade da medida com a ordem executiva 14305, assinada pelo presidente Trump em maio de 2025, que exige o uso das “melhores provas científicas disponíveis” nas políticas federais.

Durante a conferência de imprensa de apresentação, o comissário da FDA, Marty Makary, criticou as orientações do passado, acusando-as de um “foco míope na diabolização de gorduras saturadas naturais”. Makary defendeu o aumento das recomendações de proteína, argumentando que as anteriores eram insuficientes para o desenvolvimento das crianças. Contudo, cardiologistas como Andrew Freeman, do National Jewish Health em Denver, rebatem: “Exceto os muito doentes ou idosos, a deficiência de proteína quase não existe nos Estados Unidos”.

O cerne da controvérsia reside na quantificação. As próprias diretrizes recomendam que menos de 10% das calorias diárias provenham de gorduras saturadas. Uma análise do Nutrition Source, da Escola de Saúde Pública de Harvard, ilustra o potencial descompasso. Segundo os seus cálculos, o consumo de três porções de laticínios gordos, somado a uma colher de manteiga e um hambúrguer caseiro, faria uma pessoa numa dieta de 2000 calorias ultrapassar facilmente aquele limite. A situação agrava-se com produtos comercializados no âmbito da nova política, como o “Steakburger 7×7” da cadeia Steak ‘n Shake, que, segundo os dados disponíveis, contém 66 gramas de gordura saturada e 7 gramas de gorduras trans. A CNN contactou a Biglari Holdings, proprietária da marca, mas não obteve resposta.

As gorduras trans, proibidas industrialmente nos EUA exceto em quantidades mínimas, permanecem presentes de forma natural em produtos de origem animal. Kim Williams alerta que o sebo de vaca, agora promovido, contém níveis elevados dessas gorduras trans de ruminantes, que são “ativamente pró-inflamatórias”. A combinação com alta gordura saturada, comum em alimentos fritos, representa um risco cardiovascular substancial, avisa.

Esta posição da cardiologia tem um lastro histórico. A American Heart Association emitiu a primeira recomendação para reduzir a gordura saturada em 1961, conselho reiterado inúmeras vezes ao longo de décadas com base em centenas de estudos. “Nunca foi uma questão de ‘sem gordura'”, esclarece Andrew Freeman. “A ênfase está nas gorduras polinsaturadas e monoinsaturadas. É isso que a dieta mediterrânica e outras dietas predominantemente vegetais demonstraram”. Esta dieta, amplamente respaldada por ciência, limita drasticamente a carne vermelha e os laticínios gordos, focando-se em vegetais, cereais integrais e azeite.

Monica Aggarwal, professora de medicina cardiovascular na Universidade da Flórida, teme o impacto da nova pirâmide na perceção pública. “As pessoas vão olhar e pensar ‘Oh, posso comer o bife que quiser’. As redes sociais já estão cheias de manchetes como ‘A carne de vaca voltou ao topo'”, lamenta. “No entanto, não há debate sobre o facto de a gordura saturada nesses alimentos estar ligada à doença cardíaca”. Para estes especialistas, a ciência de longa data foi desvalorizada em favor de uma narrativa que, na sua visão, poderá agravar a principal causa de morte no país.

PR/HN/MM

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