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A segunda edição do Estudo Nacional de Saúde – Estado de Saúde Geral da População Portuguesa, desenvolvido pela Marktest para a Medicare, revela um padrão ainda muito reativo na relação com os cuidados de saúde, marcado pela ausência de acompanhamento regular e por lacunas de literacia em saúde preventiva. Nesta entrevista, Filipe Pinto, médico e professor convidado da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, analisa os principais resultados do estudo, os impactos clínicos e sistémicos deste comportamento e os desafios para a construção de uma verdadeira cultura de prevenção em Portugal.
HealthNews (HN) – Dr. Filipe Pinto, qual a sua opinião geral sobre os principais resultados da segunda edição do Estudo Nacional de Saúde?
Filipe Pinto (FP) – O estudo confirma algo que já intuíamos, mas que agora fica sustentado por dados sólidos: os portugueses tendem a valorizar a saúde, mas continuam a adotar um comportamento pouco estruturado do ponto de vista preventivo. Há uma perceção positiva do estado geral de saúde que não se traduz, necessariamente, em acompanhamento regular. O mérito do Estudo Nacional de Saúde, desenvolvido pela Marktest para a Medicare, está precisamente em mostrar esta discrepância entre intenção, perceção e prática clínica real.
HN – Por que acha que as consultas regulares ao médico estão a diminuir, com apenas 14,8% a consultarem em menos de seis meses?
FP – Este número deve ser analisado com alguma nuance. Nem todas as faixas etárias, nem todos os perfis de risco, exigem o mesmo ritmo de vigilância clínica. Uma pessoa jovem, sem fatores de risco relevantes, não deve ter o mesmo padrão de acompanhamento que alguém com mais idade ou com doença crónica. O problema não está tanto no valor absoluto, mas no facto de muitos portugueses não terem um plano de acompanhamento ajustado à sua fase de vida. O estudo sugere que a ausência de consultas regulares não resulta de uma decisão informada, mas antes de uma lógica reativa: vai-se ao médico quando surge um sintoma, não porque exista uma estratégia de prevenção definida.
HN – Como interpreta o facto de 27,6% dos portugueses referirem dificuldades de acesso e 66,8% não sentirem necessidade de ir ao médico?
FP –O dado mais relevante aqui é, sem dúvida, o da “não necessidade”. Ele revela uma conceção ainda muito enraizada de saúde como ausência de doença sentida. Em termos clínicos, isso é limitador, porque grande parte dos fatores de risco mais relevantes evolui de forma silenciosa. Quando quase dois terços da população sentem que não precisam de acompanhamento, isso aponta para uma lacuna de literacia em saúde preventiva, mais do que para um simples problema de organização do sistema.
HN – Que impacto tem o comportamento reativo, de procurar cuidados apenas quando surgem sintomas, na saúde pública e nos resultados clínicos?
FP –O impacto é profundo. Um modelo reativo tende a produzir diagnósticos mais tardios, tratamentos mais prolongados e maior complexidade clínica. Em saúde pública, isto traduz-se em maior pressão sobre respostas agudas e menor eficiência global do sistema. No plano individual, as consequências são particularmente relevantes nas doenças crónicas. O descontrolo prolongado dos fatores de risco cardiovascular — como hipertensão arterial, dislipidemia, diabetes ou tabagismo — pode evoluir de forma silenciosa até se manifestar sob a forma de eventos graves, como enfarte do miocárdio, AVC ou insuficiência cardíaca, muitas vezes com impacto funcional permanente. Para a pessoa, isso significa não só mais incerteza e ansiedade, mas também perda de autonomia e qualidade de vida, numa relação com a saúde que passa a ser episódica e centrada no dano, em vez de contínua e orientada para a prevenção.
HN – Que medidas podem incentivar uma cultura de prevenção e visitas médicas regulares?
FP –O ponto central é abandonar a ideia de uma prevenção uniforme para todos. A prevenção eficaz é estratificada: depende da idade, do género, do historial clínico e do contexto de vida. Quando o acompanhamento é percebido como proporcional, personalizado e com objetivos claros, deixa de ser visto como um excesso e passa a ser entendido como uma ferramenta de gestão da saúde. O estudo mostra que ainda não existe, para muitos portugueses, essa noção de percurso preventivo ao longo da vida.
Para que essa mudança aconteça, a educação para a saúde é determinante e deve ocorrer a vários níveis, envolvendo todos os intervenientes do ecossistema. Não pode ser encarada apenas como uma responsabilidade da saúde pública ou do sistema público de saúde. Entidades privadas, planos de saúde, seguradoras, empregadores e prestadores de cuidados têm também um papel relevante na promoção de literacia em saúde, no incentivo a percursos preventivos estruturados e na normalização das visitas médicas regulares.
HN – A saúde mental é apontada como prioridade, mas apenas cerca de 10% recorre a consultas de Psicologia. Como vê esta discrepância?
FP –Esta discrepância é um dos sinais mais claros do desfasamento entre discurso e prática. Fala-se mais de saúde mental, há maior consciência, mas isso ainda não se traduz numa procura efetiva de acompanhamento. Persistem barreiras culturais, dúvidas sobre quando procurar ajuda e a ideia de que o apoio psicológico é apenas para situações-limite. O estudo mostra que existe sofrimento emocional relevante, mas pouco acompanhamento estruturado e continuado.
HN – Quase 60% dos portugueses não realizou uma consulta de Saúde Oral no último ano. Quais as possíveis consequências desta lacuna?
FP –A Saúde Oral continua a ser tratada como algo secundário, quando na verdade é uma componente fundamental da saúde global. A ausência de vigilância regular leva à progressão silenciosa de problemas que acabam por se manifestar de forma mais complexa e difícil de tratar. Além disso, há uma ligação cada vez mais bem documentada entre saúde oral e outras patologias sistémicas, o que reforça a importância da prevenção nesta área.
HN – Como explica a baixa procura por Oftalmologia e Ginecologia?
FP –Em ambas as especialidades, a ausência de sintomas visíveis é um fator determinante para o adiamento das consultas. Existe a perceção de que, enquanto tudo “funciona bem”, não há urgência em vigiar. O risco está precisamente aí: muitas das patologias com maior impacto nestas áreas beneficiam claramente de deteção precoce. A baixa procura reflete, mais uma vez, uma cultura ainda muito centrada na reação e pouco na antecipação.
No caso da Ginecologia, importa também esclarecer que grande parte dos rastreios é realizada nos cuidados de saúde primários, pelo que uma menor procura por consultas especializadas pode, em alguns contextos, refletir a existência de uma vigilância preventiva adequada a esse nível. Já na Oftalmologia, a baixa procura está frequentemente associada à falta de literacia em saúde visual, com muitas pessoas a normalizarem alterações da visão – como a sua diminuição progressiva – atribuindo-as apenas ao envelhecimento. Em ambos os casos, persiste uma cultura ainda muito centrada na reação e pouco na antecipação.
HN – Que opinião tem sobre o uso regular de suplementos alimentares por parte de dois em cada dez portugueses?
FP –O recurso a suplementos revela uma tentativa de compensar, de forma simples, preocupações legítimas com saúde e bem-estar. O problema surge quando estes produtos substituem uma avaliação clínica adequada ou hábitos estruturais como alimentação equilibrada, sono e atividade física. Sem orientação, os suplementos podem criar uma falsa sensação de segurança, que não corresponde a um verdadeiro acompanhamento da saúde.
É também importante perceber que nem todos os suplementos são iguais. Alguns têm evidência científica robusta, como os ómega-3 (EPA e DHA), associados à preservação da função neuronal e a um possível atraso do declínio cognitivo. Outros, apesar de populares, não demonstram benefícios claros para a saúde, o que torna essencial uma escolha informada e acompanhada.
HN – Que mensagem gostaria de deixar sobre a importância da prevenção e do acompanhamento médico regular?
FP –A principal mensagem é que a prevenção não deve ser confundida com excesso de exames ou com medicalização desnecessária do quotidiano. Prevenir é, antes de mais, conhecer o próprio risco, acompanhar a saúde de forma ajustada à fase da vida e intervir antes de surgirem sintomas que já representam doença instalada. O Estudo Nacional de Saúde mostra que muitos portugueses ainda associam ir ao médico apenas à existência de um problema concreto, quando, na verdade, grande parte das condições com maior impacto na saúde pública evolui de forma silenciosa ao longo dos anos.
O acompanhamento médico regular permite ganhar previsibilidade e reduzir incerteza. Permite identificar alterações subtis, ajustar comportamentos, clarificar dúvidas e tomar decisões informadas, em vez de reagir a situações de urgência. Quando existe um percurso de vigilância bem definido, a relação com a saúde torna-se mais tranquila, mais racional e menos ansiosa.
Por fim, importa sublinhar que a prevenção eficaz é proporcional e personalizada. Não exige o mesmo ritmo nem o mesmo tipo de vigilância para todas as pessoas, mas exige que cada pessoa saiba qual é o seu plano. Investir na prevenção é investir em anos de vida com mais qualidade, em melhores resultados clínicos e numa utilização mais inteligente dos recursos de saúde. É esse o verdadeiro valor do acompanhamento regular.
HealthNews / Antónia Lisboa



depois de um dia destes ter visto Vossa Exas Numa estação de televisão que me chamou a atenção para o facto de não muitas de vexes? a ver faltar mais-valia para os (Humanos) deste ,pequeno pais em que naqual se chama(PORTUGAL) nao sê iremos mais aos centros de saúde Pelas melhores condições em que o mesmo se encontra? Lamento mas vou-lhe contar algo que se passou comigo? no (dia 04/02/2026 ) no mercado no (Pinhal Novo Municipio de Palmela) tenho 83 anos , assim como sou deficiente , sou portador duma doenças em que a mesma já foi-me detectada 11/03/2011 em que a mesmas foram descoberta por o Senhor Dr. James Paget. como também tenho 75/% do fumer partido, e com uma (Perna mais comprida 20 cm, Em 17/05/2024 depois de ter uma consulta com oSenhor no centro de saúde em o mesmo fez o favor de me marcar uma estive um ano há Espera? com os melhores cumprimentos F.A. Esteves